29/07/2009
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comentários
por Abel Luiz (músico, compositor, da equipe de do Curso de Agentes Culturais Populares)
Estar na praça é irrecusavelmente estar com o outro, seja ele quem ou como for. É expor-se para uma série de experiências que valorizam e ressignificam o que é viver numa grande cidade. Algo que, historicamente, é comprovado, pois a praça já foi palco de grandes decisões políticas, religiosas, artísticas e dialéticas. Ela é viva em todos os continentes. È um fator universal de coalizão, coesão com o presente, é uma perspectiva de um futuro. É a praça que proporciona um sem-fim de experiências significativas através de instrumentos que, a primeira vista, parecem tão simples. Não se precisa ter dinheiro para se estar na praça. Para estar na praça é necessário somente que os indivíduos se respeitem entre si, assim como a si mesmos.
A praça, portanto, enquanto espaço público, legitima, simbolicamente, o direito a cidade, o ser cidadão, a diferença, a experiência de e com a cidade, de dentro pra fora, com a participação de todos e em todos. A partir do momento em que a praça oculta um indivíduo, uma diferença, este perde seu poder expressão na sociedade, perde sensibilidade com outro, consigo e com o meio. Daí a importância de se fazer presente nas praças públicas como passo inicial à participação no espaço público. Um espaço que é de todos, para todos e que, portanto, tem de ser feito por todos.
Quantas vezes, num universo despretensioso de expectativas, inúmeras pessoas fizeram ´´suas`` belas e doces recordações a partir de uma praça? Lembranças de amor, tristeza, revolta, indignação, infância, velhice, etc. E o que este espaço tem de tão transformador e impressionante capaz de produzir esse amálgama de vivências na vida de um ser humano? Estruturalmente, existem elementos que dizem fisicamente o que é e como é uma praça, facilmente visíveis quando esta é observada na sua paisagem com brinquedos como escorrega, gangorra e balanço, por exemplo; bancos; jardim; chafariz; bancos e mesas de pedra com tabuleiro de damas; árvores; coreto; terra batida; estátuas. Do ponto de vista humano, a praça conta com gente de todas as idades; mães; avós; camelôs; profissionais no intervalo do trabalho; desempregados; estudantes; videntes; artistas; negros, pardos e brancos; mendigos; pessoas bem de vida; pessoas com sorte ou sem sorte; namorados; enfim, todo o tipo de pessoas. E é justamente por toda essa diversidade humanística dentro de uma pequena porção de área da cidade que este espaço torna-se tão especial.
Estar na praça é irrecusavelmente estar com o outro, seja ele quem ou como for. É expor-se para uma série de experiências que valorizam e ressignificam o que é viver numa grande cidade. Algo que, historicamente, é comprovado, pois a praça já foi palco de grandes decisões políticas, religiosas, artísticas e dialéticas. Ela é viva em todos os continentes. È um fator universal de coalizão, coesão com o presente, é uma perspectiva de um futuro. É a praça que proporciona um sem-fim de experiências significativas através de instrumentos que, a primeira vista, parecem tão simples. Não se precisa ter dinheiro para se estar na praça. Para estar na praça é necessário somente que os indivíduos se respeitem entre si, assim como a si mesmos.
Espaços como este, apesar de não parecer, emanam grande poder. Possuem grande força de atração e repulsão. Quantas vezes, pessoalmente, ou através de grandes meios de comunicação de massa como a TV, o rádio, o jornal e a internet, as praças se fazem notar na grande mídia congregando uma quantidade enorme e diversa de pessoas nas mais diferentes situações ou causas. Daí a sua importância para o espaço público, assim como para o poder público. A praça, enquanto espaço catalisador de diversidades humanas, aponta para novas formas de se pensar a cidade, de ver-a-cidade. Ao mesmo tem em que, enquanto espaço político de segregação e particularização, denuncia para como a política pública atual aponta e demarca algumas práticas e praticantes locais, segmentando a participação de diferentes atores sociais.
A praça, portanto, enquanto espaço público, legitima, simbolicamente, o direito a cidade, o ser cidadão, a diferença, a experiência de e com a cidade, de dentro pra fora, com a participação de todos e em todos. A partir do momento em que a praça oculta um indivíduo, uma diferença, este perde seu poder expressão na sociedade, perde sensibilidade com outro, consigo e com o meio. Daí a importância de se fazer presente nas praças públicas como passo inicial à participação no espaço público. Um espaço que é de todos, para todos e que, portanto, tem de ser feito por todos.
por Abel Luiz (músico e compositor, da equipe do Curso de Formação de Agentes Culturais Populares)
[1] Vedados porque desencorajam as pessoas a ficar por perto ou impedem sua entrada (Bauman, 84)
[2] Atlas escolar da cidade do Rio de Janeiro. Produzido no mandato do prefeito Luiz Paulo Conde, em 2000.
[3] No mapa anteriormente referido encontram-se os seguintes dados sobre as duas áreas colocadas em questão, São Conrado e Vidigal, respectivamente: Superfície (km2): 6,37 – 1,91; População (habitantes): 13.9996 – 12.052; Densidade demográfica (hab. – Km2): 2.200 – 6.316,6; Renda média (salário mínimo): 22,5 – 3,1.
Zygmunt Bauman, sociólogo polonês radicado na Inglaterra, tem trazido a um grande número de leitores e estudiosos uma gama enorme de contribuições sobre mecanismos e engrenagens, objetivos e subjetivos, da sociedade contemporânea. Temas como o globalismo e o localismo, tão centrais nos debates políticos mundiais, são por ele analisados, contextualizados e debatidos em busca, não de respostas, mas, sim, de um constante e progressivo questionamento. Afinal, como diz Mauro Matti, ao comentar sobre a lógica do pensamento de Bauman:
´´a lógica do pensamento de Bauman nos leva compreender que não existem determinismos na vida social. Isso se os atores enfrentarem e exercitarem até o fim sua capacidade de ação – que é, afinal, a capacidade de modificar o curso dos acontecimentos a partir de novos investimentos nas relações e nos vínculos, entendidos como elementos essenciais na construção de um novo capital social. Não de modo ingênuo, mas segundo uma reflexão contínua e séria sobre as condições do próprio agir``(BAUMAN, 12)
E, então, com essas palavras, Mauro Matti termina o prefácio que abre o caminho a mais um mundo de reflexões reais e poéticas, alegres e dolorosas, ricas e miseráveis da e na sociedade contemporânea no livro de Bauman intitulado Confiança e medo na cidade. Livro este onde temas como (in)segurança, medo, desigualdade indiferença, ordenação, controle, opressão, estigma, preconceito e indigência inter relacionam-se com temas como solidariedade, cidadania, espaço público, democratização, alteridade, identidade, espectativa, esperança, luta, expressão e compaixão.
E, assim, paralelo ao livro, desenha-se esse texto, aproximando tais discussões à cidade do Rio de Janeiro. Onde, de cada um dos três capítulos da obra referida serão extraídas reflexões sobre o dia-a-dia desta cidade, tão local e tão global como algumas poucas, porém muito influentes, no mundo.
Confiança e medo na cidade
Uma palavra inquieta a humanidade – segurança. Ela parece não ter resposta. Ela parece não ter pergunta. Melhor, ela parece. Perguntas como: O que é segurança? Onde há segurança? o que é preciso para se estar seguro? O que é se sentir seguro? Quem disse que não estamos seguros ou que somos tão frágeis perante o outro, ao mundo?; e muitas outras circulam, acompanhadas de muitas outras, pelas sociedades contemporâneas. Como esperar de algo tão individual e tão coletivo simultaneamente essa precisão – uma única resposta – num mundo de possibilidade que um e todos os indivíduos carregam dentro e fora de si?
Perante a isso, Bauman, no primeiro capítulo da sua obra, aponta para a insegurança. Insegurança esta representada no espaço, na língua, no outro. Hoje, grandes cidades como o Rio de Janeiro deparam-se com um número cada vez maior de condomínios e tecnologias de segurança. Um mundo de frustrações. Estas manifestadas nas insatisfações com os resultados, pois, com todo o isolamento e proteção de que dispõem alguns ´´cidadãos``, não se faz presente a garantia da segurança:
´´Não se entende porque os regulamentos por nós mesmos não apresentam... benefício e proteção para cada um de nós. Por isso, se a proteção de fato disponível e as vantagens que desfrutamos não estão totalmente à altura das nossas espectativas; se nossas relações não são aquelas que gostaríamos de desenvolver; se as regras não são exatamente como deveriam e, a nosso ver, poderiam ser; tendemos imaginar maquinações hostis, complôs, conspirações de um inimigo, que se encontra em nossa porta ou embaixo de nossa cama. Em suma, deve haver um culpado, um crime ou uma intenção criminosa``(BAUMAN, 15)
Continuando, em suma, deve haver alguém responsável por minhas atitudes frustradas em busca de segurança. E, ao se deparar com tão dura verdade, certos indivíduos, diante de tão forte e eminente constatação de sua fragilidade, reagem depositando as suas inseguranças, as suas fragilidades, os seus medos, as suas frustrações no outro. Percorrendo um caminho onde a impossibilidade de total segurança (proteção própria), como resposta a todos os investimentos afetivos e financeiros, gera o delinqüente. Este acaba sendo ´´culpado`` e fica com a responsabilidade de responder pelas ineficiências de certos indivíduos e, posteriormente da sociedade, nas suas relações internas e externas, consigo, com a realidade que faz parte e com o mundo. Nesse contexto, Buaman faz a seguinte consideração sobre a (in)segurança:
´´quando percebemos que não iremos alcançá-la só conseguimos explicar o fracasso imaginando que ele se deve um ato mau e premeditado, o que implica a existência de um delinqüente.`` (BAUMAN, 15)
No caso do Rio de Janeiro, investir em segurança é um privilégio, residencial e logístico, para poucos. Que, em contrapartida, justificam seus fracassos, depositam suas frustrações e inseguranças na figura e no espaço do pobre. Ou seja, em pessoas que na sua grande maioria são negras e que moram em subúrbios, periferias e favelas das cidades. Pessoas que não escolheram ser pobres e que se encontram nesta condição por causa da condição desigual em que vivem frente a alguns poucos indivíduos e ao capitalismo de consumo. Ou seja, essa delinqüência, tem cor e endereço – tem dono. Diante disso, eis o paradigma no qual Bauman elenca a cidade a globalização:
´´as cidades se transformaram em depósitos de problemas causados pela globalização. Os cidadãos e aqueles que foram eleitos como seus representantes estão diante de uma tarefa que não podem nem sonhar em resolver: a tarefa de encontrar soluções locais para condições globais``(BAUMAN, 32)
É nas diferentes localidades da cidade que se observam as construções de laços – consigo, com o outro, com o lugar de origem e com os outros lugares -, onde a diversidade diverge e converge, e como essa busca por espaços ´´seguros`` vai ao encontro dos ´´espaços vedados``[1]:
´´quanto mais nos separamos de nossas vizinhanças imediatas, mais confiança depositamos na vigilância do ambiente... Existem em muitas áreas urbanas, um pouco no mundo todo, casas protegidas para proteger seus habitantes, e não para integrá-los as comunidades as quais pertencem``(BAUMAN, 25)
Tal situação, claramente, pode ser vista, por exemplo, nas relações entre os moradores de grandes condomínios localizados na zona sul da cidade e seus vizinhos mais próximos, os morros e favelas que os circundam. Onde, ´´a cerca (muros) separa o ´´gueto voluntário`` dos arrogantes dos muitos condenados a nada ter``. Até porque ´´para aqueles que vivem num ´´gueto voluntário``, os outros guetos são espaços ´´nos quais não entrarão jamais``. Assim como, ´´para aqueles que estão nos ´´guetos involuntários``, a área a que estão confinados – politicamente, culturalmente, economicamente e socialmente - (excluídos de qualquer outro lugar) é um espaço do qual ´´não lhes é permitido sair``(Bauman, 2005). Fato que, historicamente, atravessa os tempos na estrutura desigual de classes onde, no Brasil, os (poucos) ricos ficam cada vez mais ricos e os (muitos) pobres ficam cada vez mais pobres, assim como suas localidades.
Portanto, tal isolamento só aumenta a intolerância à diversidade, esta vem ideologicamente disfarçada de busca por uniformidade, seja ela nos condomínios ou bairros residenciais. Locais que, na sua homogeneidade, reduzem – se não acabam – com a diversidade de experiências locais e humanas, fragmentando cada vez mais as pessoas, os espaços e as expectativas de vida. Daí a importância social, política e cultural do livre acesso à cidade e à cidadania para que haja mudança. Mudança esta, onde, como aponta Bauman, ´´a fusão que uma compreensão recíproca exige só poderá resultar de uma experiência compartilhada, e certamente não se pode pensar em compartilhar uma experiência sem compartilhar o espaço.
Buscar abrigo na caixa de Pandora: medo e incerteza na vida urbana
´´a lógica do pensamento de Bauman nos leva compreender que não existem determinismos na vida social. Isso se os atores enfrentarem e exercitarem até o fim sua capacidade de ação – que é, afinal, a capacidade de modificar o curso dos acontecimentos a partir de novos investimentos nas relações e nos vínculos, entendidos como elementos essenciais na construção de um novo capital social. Não de modo ingênuo, mas segundo uma reflexão contínua e séria sobre as condições do próprio agir``(BAUMAN, 12)
E, então, com essas palavras, Mauro Matti termina o prefácio que abre o caminho a mais um mundo de reflexões reais e poéticas, alegres e dolorosas, ricas e miseráveis da e na sociedade contemporânea no livro de Bauman intitulado Confiança e medo na cidade. Livro este onde temas como (in)segurança, medo, desigualdade indiferença, ordenação, controle, opressão, estigma, preconceito e indigência inter relacionam-se com temas como solidariedade, cidadania, espaço público, democratização, alteridade, identidade, espectativa, esperança, luta, expressão e compaixão.
E, assim, paralelo ao livro, desenha-se esse texto, aproximando tais discussões à cidade do Rio de Janeiro. Onde, de cada um dos três capítulos da obra referida serão extraídas reflexões sobre o dia-a-dia desta cidade, tão local e tão global como algumas poucas, porém muito influentes, no mundo.
Confiança e medo na cidade
Uma palavra inquieta a humanidade – segurança. Ela parece não ter resposta. Ela parece não ter pergunta. Melhor, ela parece. Perguntas como: O que é segurança? Onde há segurança? o que é preciso para se estar seguro? O que é se sentir seguro? Quem disse que não estamos seguros ou que somos tão frágeis perante o outro, ao mundo?; e muitas outras circulam, acompanhadas de muitas outras, pelas sociedades contemporâneas. Como esperar de algo tão individual e tão coletivo simultaneamente essa precisão – uma única resposta – num mundo de possibilidade que um e todos os indivíduos carregam dentro e fora de si?
Perante a isso, Bauman, no primeiro capítulo da sua obra, aponta para a insegurança. Insegurança esta representada no espaço, na língua, no outro. Hoje, grandes cidades como o Rio de Janeiro deparam-se com um número cada vez maior de condomínios e tecnologias de segurança. Um mundo de frustrações. Estas manifestadas nas insatisfações com os resultados, pois, com todo o isolamento e proteção de que dispõem alguns ´´cidadãos``, não se faz presente a garantia da segurança:
´´Não se entende porque os regulamentos por nós mesmos não apresentam... benefício e proteção para cada um de nós. Por isso, se a proteção de fato disponível e as vantagens que desfrutamos não estão totalmente à altura das nossas espectativas; se nossas relações não são aquelas que gostaríamos de desenvolver; se as regras não são exatamente como deveriam e, a nosso ver, poderiam ser; tendemos imaginar maquinações hostis, complôs, conspirações de um inimigo, que se encontra em nossa porta ou embaixo de nossa cama. Em suma, deve haver um culpado, um crime ou uma intenção criminosa``(BAUMAN, 15)
Continuando, em suma, deve haver alguém responsável por minhas atitudes frustradas em busca de segurança. E, ao se deparar com tão dura verdade, certos indivíduos, diante de tão forte e eminente constatação de sua fragilidade, reagem depositando as suas inseguranças, as suas fragilidades, os seus medos, as suas frustrações no outro. Percorrendo um caminho onde a impossibilidade de total segurança (proteção própria), como resposta a todos os investimentos afetivos e financeiros, gera o delinqüente. Este acaba sendo ´´culpado`` e fica com a responsabilidade de responder pelas ineficiências de certos indivíduos e, posteriormente da sociedade, nas suas relações internas e externas, consigo, com a realidade que faz parte e com o mundo. Nesse contexto, Buaman faz a seguinte consideração sobre a (in)segurança:
´´quando percebemos que não iremos alcançá-la só conseguimos explicar o fracasso imaginando que ele se deve um ato mau e premeditado, o que implica a existência de um delinqüente.`` (BAUMAN, 15)
No caso do Rio de Janeiro, investir em segurança é um privilégio, residencial e logístico, para poucos. Que, em contrapartida, justificam seus fracassos, depositam suas frustrações e inseguranças na figura e no espaço do pobre. Ou seja, em pessoas que na sua grande maioria são negras e que moram em subúrbios, periferias e favelas das cidades. Pessoas que não escolheram ser pobres e que se encontram nesta condição por causa da condição desigual em que vivem frente a alguns poucos indivíduos e ao capitalismo de consumo. Ou seja, essa delinqüência, tem cor e endereço – tem dono. Diante disso, eis o paradigma no qual Bauman elenca a cidade a globalização:
´´as cidades se transformaram em depósitos de problemas causados pela globalização. Os cidadãos e aqueles que foram eleitos como seus representantes estão diante de uma tarefa que não podem nem sonhar em resolver: a tarefa de encontrar soluções locais para condições globais``(BAUMAN, 32)
É nas diferentes localidades da cidade que se observam as construções de laços – consigo, com o outro, com o lugar de origem e com os outros lugares -, onde a diversidade diverge e converge, e como essa busca por espaços ´´seguros`` vai ao encontro dos ´´espaços vedados``[1]:
´´quanto mais nos separamos de nossas vizinhanças imediatas, mais confiança depositamos na vigilância do ambiente... Existem em muitas áreas urbanas, um pouco no mundo todo, casas protegidas para proteger seus habitantes, e não para integrá-los as comunidades as quais pertencem``(BAUMAN, 25)
Tal situação, claramente, pode ser vista, por exemplo, nas relações entre os moradores de grandes condomínios localizados na zona sul da cidade e seus vizinhos mais próximos, os morros e favelas que os circundam. Onde, ´´a cerca (muros) separa o ´´gueto voluntário`` dos arrogantes dos muitos condenados a nada ter``. Até porque ´´para aqueles que vivem num ´´gueto voluntário``, os outros guetos são espaços ´´nos quais não entrarão jamais``. Assim como, ´´para aqueles que estão nos ´´guetos involuntários``, a área a que estão confinados – politicamente, culturalmente, economicamente e socialmente - (excluídos de qualquer outro lugar) é um espaço do qual ´´não lhes é permitido sair``(Bauman, 2005). Fato que, historicamente, atravessa os tempos na estrutura desigual de classes onde, no Brasil, os (poucos) ricos ficam cada vez mais ricos e os (muitos) pobres ficam cada vez mais pobres, assim como suas localidades.
Portanto, tal isolamento só aumenta a intolerância à diversidade, esta vem ideologicamente disfarçada de busca por uniformidade, seja ela nos condomínios ou bairros residenciais. Locais que, na sua homogeneidade, reduzem – se não acabam – com a diversidade de experiências locais e humanas, fragmentando cada vez mais as pessoas, os espaços e as expectativas de vida. Daí a importância social, política e cultural do livre acesso à cidade e à cidadania para que haja mudança. Mudança esta, onde, como aponta Bauman, ´´a fusão que uma compreensão recíproca exige só poderá resultar de uma experiência compartilhada, e certamente não se pode pensar em compartilhar uma experiência sem compartilhar o espaço.
Buscar abrigo na caixa de Pandora: medo e incerteza na vida urbana
No segundo capítulo, Bauman aponta para a racionalização da cidade e o poder de construção simbólica desta na sua comunicação com seus habitantes. O poder público assume, resume e transforma a cidade em dados e estatísticas. Tais dados e estatísticas, paralelos aos padrões das relações globais de consumo, ganham vida através das políticas públicas imprimindo marcas profundas no planejamento urbano da cidade. Em outras palavras, uma quantificação e uma geometrização da cidade. Fatores estes que dificultam a emergência de uma melhor (com)vivência no espaço público.
Quando se fala em poder público, este ´´público`` pode representar duas vivências. A que dá e a que recebe poder, tornando público ou não determinado território. Daí surgem tantas discussões sobre a impotância de creches, hospitais, escolas, postos de saúde, etc. É uma via de, enquanto serviços e gestores, domínio e controle (geração de dados) através das instituições reguladoras. Porém, não havendo dados – ou como obtê-los – surgem dados falsos ou, simplesmente, não há dados, para tais instituições frente ao Estado, não há necessidade de gerir. Em outras palavras, não há porque ´´existir`` ou ´´existir`` de forma correta um território que aponta as fraquezas, deficiências e ineficiências do Estado.
Diante do contexto apresentado, torna-se de suma importância uma reflexão sobre esses dados: Quem os recolhe? Como os recolhe? De qual perspectiva eles emanam? E as sérias conseqüências que a existência ou não destes, assim como a confiabilidade ou não de seus resultados pode influenciar no destino local e global das políticas públicas na cidade do Rio de Janeiro.
Primeiro, é importante esclarecer que grande parte das pesquisas feitas por órgãos públicos e privados no Brasil não procura entender porque poucos estão tão ricos, mas procuram entender porque muitos estão tão pobres. Outro aspecto importante, é que valores são levados em conta nessas pesquisas. Bauman, nesse sentido, aponta como exemplo o termo-situação desemprego:
´´Desempregado é uma palavra perigosa, pois sugere mais do que realmente diz. Estar desempregado significa que a regra, para os seres humanos, é estar empregado; portanto estar desempregado é um incidente, uma coisa bizarra, anômala, que é preciso enfrentar. Mas agora, cada vez com maior freqüência, podemos ouvir algumas pessoas dizerem que outras são supérfulas – não desempregadas, mas supérfulas. ``(BAUMAN, 82-83)
Assim como o exemplo do desempregado, esses dados legitimam valores como racismo e preconceito, estes ´´legitimados`` na figura do pobre, do favelado, do camelô, do negro, formas de exclusão, ou melhor, formas de excluídos. Tal constatação leva a explicação de como são feitas essas pesquisas, assim como os paradigmas que as envolvem. Dando como exemplo o IBGE, na figura do recenseador, este é instruído para a coleta de dados. Coletas estas que se contrapõem com a contribuição crítica do recenseador, pois tal órgão prefere aumentar a diversidade de respostas dos entrevistados, buscando uma possível ´´aproximação`` de resultados, do que investir na participação e contribuição crítica do recenseador diante de como tal ´´realidade`` se apresenta, ou melhor, é representada.
Daí resulta uma diversidade enorme de respostas que dotarão os gestores de dados, em diversas esferas, de informações sobre ´´a realidade`` com a qual terão de administrar. Uma realidade preconceituosa e racista, onde pessoas pobres dizem que não são tão pobres quanto aparentam; negros dizem que são pardos; analfabetos se dizem letrados; desempregados dizem que estão empregados. Realidade esta dita ao recenseador que toma nota. Só nessa colocação, já se pode ter uma noção do quanto tais valores afligem a sociedade e distorcem realidades.
Porém, no Rio de Janeiro, há uma situação muito particular que são as favelas e morros da cidade. No atlas entregue aos professores da rede pública de ensino[2], áreas da cidade como o Complexo do Alemão, por exemplo, não contam com dados referentes a renda média de seus habitantes. Já uma área como a Rocinha, a maior favela da América Latina, conta com dados inverossímeis referentes à grande população que lá se encontra – 45.585. Surgem perguntas como: será que os responsáveis pela coleta de dados tiveram livre acesso às favelas ou parte delas? Se não tiveram acesso a ela ou a algumas partes por que esses dados são levados em conta? Como e pra que trabalhar com dados imprecisos?
E, conseqüentemente, gera-se uma massa de ´´indigentes``. Pessoas não computadas ou mal computadas que, estatisticamente, sem perceber, reproduzem preconceitos e reforçam dificuldades nas suas comunidades. Que melhor justificativa o poder público poderia querer! Pois não tendo quantidade ou tendo uma quantidade inexata, uma favela que precisa de seis escolas, por exemplo, segundo os ´´dados`` referentes à sua quantidade habitantes, só receberá – isso, quando recebe – uma. E assim continua em outras instituições como creches, hospitais, e postos de saúde, por exemplo.
Outra característica que os mapas apresentam é a segmentação dos espaços das favelas, algumas ganham o status de bairro vizinho, porém, isso é algo claramente visível em locais de grande extensão territorial e pouca penetração e interesse público como os Complexos do Alemão, Maré e Rocinha, por exemplo. Nesse ponto, as favelas, assim como praticamente toda a cidade, vão desencontrar com o planejamento urbano contemporâneo, que tem como premissa de organização (ordenação) e controle a planificação e geometrização da cidade. Algo praticamente impossível para o Rio de Janeiro, cidade onde todo seu diferencial está na sinuosidade de suas formas geográficas. Formas estas que necessariamente, principalmente nas áreas turísticas da cidade, não precisão ou não devem, para o poder público, contar com favelas ao seu redor esteticamente e administrativamente. É muito estranho que uma região administrativa como, por exemplo, a Ilha do Governador não tenha no mapa algumas de suas grandes favelas com status de bairros vizinhos, enquanto o Vidigal, neste mesmo mapa, é considerado como bairro visinho de São Conrado. A Ilha do Governador, terceira maior arrecadadora das regiões administrativas da cidade, tem um vínculo político-administrativo com os morros e favelas que dela fazem parte, pois a administração, assim como a arrecadação, deles está diretamente ligada ao bairro de que fazem parte. Já no caso do Vidigal, acontece justamente o contrário. Seu status de bairro, além de segregá-lo geopoliticamente de São Conrado, exige uma auto-suficiência gestora, administrativa e arrecadadora que segrega e ressalta disparidades entre áreas tão próximas[3], colocando uma barreira – muro – em uma situação que só beneficiaria politicamente, administrativamente e financeiramente o Vidigal, que seria o fato deste fazer parte do bairro de São Conrado. Daí tomam vulto na agenda pública às discussões sobre remoção de favelas.
Paralelamente, a cidade se vê cada vez mais obrigada a verticalizar-se e seguimentar-se. Tais mudanças estão impressas nos redesnhos das casas, das praças, das ruas, dos bairros e da própria cidade, uma arquitetura do medo, como aponta Bauman:
´´A arquitetura do medo e da intimidação espalha-se pelos espaços públicos das cidades transformando-a sem cessar – embora furtivamente – em áreas extremamente vigiadas, dia e noite.``(BAUMAN, 63)
Assim, essa transição da cidade de espaços públicos para cidade de espaços ordenados, quantitativa e qualitativamente, imprime segmentações locais, preconceitos e legitima espacialmente a desigualdade, reduzindo a capacidade de descoberta, convivência, construção e aceitação do e com o outro. É o espaço público que oferece o momento físico e psíquico de encontro com a diferença, o diverso. E, por isso geopoliticamente, quando representado em dados ou nas políticas públicas de planejamento urbano, não deve reforçar diferenças isoladas, mas, procurar entender como tais diferensas estão conectadas nas redes relacionais sócio-políticas. Não reforçar uma realidade onde a ´´tendência para retirar-se dos espaços públicos para refugiar-se em ilhas de uniformidade acaba se transformando no maior obstáculo para viver com a diferença, e, desse modo, enfraquece os diálogos e pactos`` (Bauman, 71) e, sim, respeitar o fato de que, com o passar do tempo ´´a exposição à diferença transforma-se em fator decisivo para uma convivência feliz, fazendo secar as raízes urbanas do medo``(71), como aponta Bauman.
Viver com estrangeiros
E, terminando, o ultimo capitulo do livro aponta para uma reflexão sobre as fronteiras demarcadas pela recusa à alteridade. E, nesse sentido explica que:
´´justamente porque se demarcam fronteiras é que, de repente, as diferenças emergem, que as percebemos e nos tornamos conscientes delas. Melhor dizendo, vamos em busca de diferenças justamente para legitimar fronteiras``(BAUMAN, 75)
Tais fronteiras – diferenças – estão representadas na figura do estrangeiro. Porém, assim como todo lugar tem um estrangeiro, todo estrangeiro tem um lugar. Ou seja, ninguém está livre de ser o estrangeiro. Ninguém está livre de se ver no outro, de ser interpretado pelo outro. Porém, algo que tão belamente potencializa a (re)descoberta de si e do outro, no espaço fragmentado e seguimentado, só reforça a suspeito de si e do outro.
A ´´suspeita``, na sociedade contemporânea, é a ´´sentença``, pois nela nunca se é absolvido completamente e nunca se é completamente culpado, gerando maior preocupação e, conseqüentemente, maiores necessidades de controle, manipulação e ordenação, assim como uma contínua, crescente e desesperadora instabilidade, promotora de uma insegurança generalizante. Inviabilizando cada vez mais e a descoberta do e com o ´´outro`` - a alteridade torna-se intransitória.
Nesse contexto, partindo do princípio que a identidade se constrói a partir de um ou mais modelos, Quais são as opções de modelo? Quais opções de modelos são dadas? Quais opções de modelos são possíveis?
Escolher um modelo é um ato orgânico contínuo entre o indivíduo o mundo que o cerca, ou melhor, o mundo que ele aprende, que lhe é apresentado. Daí tornam-se chave estas duas ações: orgânica e contínua. Orgânica no sentido sócio-biológico das relações sociais, onde os órgãos, além de se originarem de uma célula que, em comunhão com outras, posteriormente, formará o tecido que a estes, conseqüentemente dará origem, fazem partem de um sistema. Sistema este, que unido a outros sistemas dá origem a um corpo – corpo social. E o fato deste corpo ser contínuo, além de se remeter a todas as suas categorias processuais (célula, tecido, órgão, sistema), refere-se ao fato de que este tem, em sua natureza, a necessidade de crescer, desenvolver, reproduzir, multiplicar, evoluir. Sendo assim, qualquer falha na comunicação e na continuidade deste corpo social pode acarretar em males físicos e-ou psíquicos, objetivos e-ou subjetivos, reais e-ou virtuais a toda sociedade. Afinal, como exigir a plenitude de um corpo sem a plenitude de suas células, seus tecidos, seus órgãos, seus sistemas, sua psique, seu espírito, seu imaginário?
Portanto, é importante ressaltar que as conseqüências da opção de um modelo são inevitáveis, porém, reversíveis no percurso da constante (re)formação e transformação do indivíduo. Pois este, enquanto atuante, força criativa e criadora, nos processos de transformação social, é quem transpõe e resignifica o modelo ao invés de reproduzi-lo.
Quando se fala em poder público, este ´´público`` pode representar duas vivências. A que dá e a que recebe poder, tornando público ou não determinado território. Daí surgem tantas discussões sobre a impotância de creches, hospitais, escolas, postos de saúde, etc. É uma via de, enquanto serviços e gestores, domínio e controle (geração de dados) através das instituições reguladoras. Porém, não havendo dados – ou como obtê-los – surgem dados falsos ou, simplesmente, não há dados, para tais instituições frente ao Estado, não há necessidade de gerir. Em outras palavras, não há porque ´´existir`` ou ´´existir`` de forma correta um território que aponta as fraquezas, deficiências e ineficiências do Estado.
Diante do contexto apresentado, torna-se de suma importância uma reflexão sobre esses dados: Quem os recolhe? Como os recolhe? De qual perspectiva eles emanam? E as sérias conseqüências que a existência ou não destes, assim como a confiabilidade ou não de seus resultados pode influenciar no destino local e global das políticas públicas na cidade do Rio de Janeiro.
Primeiro, é importante esclarecer que grande parte das pesquisas feitas por órgãos públicos e privados no Brasil não procura entender porque poucos estão tão ricos, mas procuram entender porque muitos estão tão pobres. Outro aspecto importante, é que valores são levados em conta nessas pesquisas. Bauman, nesse sentido, aponta como exemplo o termo-situação desemprego:
´´Desempregado é uma palavra perigosa, pois sugere mais do que realmente diz. Estar desempregado significa que a regra, para os seres humanos, é estar empregado; portanto estar desempregado é um incidente, uma coisa bizarra, anômala, que é preciso enfrentar. Mas agora, cada vez com maior freqüência, podemos ouvir algumas pessoas dizerem que outras são supérfulas – não desempregadas, mas supérfulas. ``(BAUMAN, 82-83)
Assim como o exemplo do desempregado, esses dados legitimam valores como racismo e preconceito, estes ´´legitimados`` na figura do pobre, do favelado, do camelô, do negro, formas de exclusão, ou melhor, formas de excluídos. Tal constatação leva a explicação de como são feitas essas pesquisas, assim como os paradigmas que as envolvem. Dando como exemplo o IBGE, na figura do recenseador, este é instruído para a coleta de dados. Coletas estas que se contrapõem com a contribuição crítica do recenseador, pois tal órgão prefere aumentar a diversidade de respostas dos entrevistados, buscando uma possível ´´aproximação`` de resultados, do que investir na participação e contribuição crítica do recenseador diante de como tal ´´realidade`` se apresenta, ou melhor, é representada.
Daí resulta uma diversidade enorme de respostas que dotarão os gestores de dados, em diversas esferas, de informações sobre ´´a realidade`` com a qual terão de administrar. Uma realidade preconceituosa e racista, onde pessoas pobres dizem que não são tão pobres quanto aparentam; negros dizem que são pardos; analfabetos se dizem letrados; desempregados dizem que estão empregados. Realidade esta dita ao recenseador que toma nota. Só nessa colocação, já se pode ter uma noção do quanto tais valores afligem a sociedade e distorcem realidades.
Porém, no Rio de Janeiro, há uma situação muito particular que são as favelas e morros da cidade. No atlas entregue aos professores da rede pública de ensino[2], áreas da cidade como o Complexo do Alemão, por exemplo, não contam com dados referentes a renda média de seus habitantes. Já uma área como a Rocinha, a maior favela da América Latina, conta com dados inverossímeis referentes à grande população que lá se encontra – 45.585. Surgem perguntas como: será que os responsáveis pela coleta de dados tiveram livre acesso às favelas ou parte delas? Se não tiveram acesso a ela ou a algumas partes por que esses dados são levados em conta? Como e pra que trabalhar com dados imprecisos?
E, conseqüentemente, gera-se uma massa de ´´indigentes``. Pessoas não computadas ou mal computadas que, estatisticamente, sem perceber, reproduzem preconceitos e reforçam dificuldades nas suas comunidades. Que melhor justificativa o poder público poderia querer! Pois não tendo quantidade ou tendo uma quantidade inexata, uma favela que precisa de seis escolas, por exemplo, segundo os ´´dados`` referentes à sua quantidade habitantes, só receberá – isso, quando recebe – uma. E assim continua em outras instituições como creches, hospitais, e postos de saúde, por exemplo.
Outra característica que os mapas apresentam é a segmentação dos espaços das favelas, algumas ganham o status de bairro vizinho, porém, isso é algo claramente visível em locais de grande extensão territorial e pouca penetração e interesse público como os Complexos do Alemão, Maré e Rocinha, por exemplo. Nesse ponto, as favelas, assim como praticamente toda a cidade, vão desencontrar com o planejamento urbano contemporâneo, que tem como premissa de organização (ordenação) e controle a planificação e geometrização da cidade. Algo praticamente impossível para o Rio de Janeiro, cidade onde todo seu diferencial está na sinuosidade de suas formas geográficas. Formas estas que necessariamente, principalmente nas áreas turísticas da cidade, não precisão ou não devem, para o poder público, contar com favelas ao seu redor esteticamente e administrativamente. É muito estranho que uma região administrativa como, por exemplo, a Ilha do Governador não tenha no mapa algumas de suas grandes favelas com status de bairros vizinhos, enquanto o Vidigal, neste mesmo mapa, é considerado como bairro visinho de São Conrado. A Ilha do Governador, terceira maior arrecadadora das regiões administrativas da cidade, tem um vínculo político-administrativo com os morros e favelas que dela fazem parte, pois a administração, assim como a arrecadação, deles está diretamente ligada ao bairro de que fazem parte. Já no caso do Vidigal, acontece justamente o contrário. Seu status de bairro, além de segregá-lo geopoliticamente de São Conrado, exige uma auto-suficiência gestora, administrativa e arrecadadora que segrega e ressalta disparidades entre áreas tão próximas[3], colocando uma barreira – muro – em uma situação que só beneficiaria politicamente, administrativamente e financeiramente o Vidigal, que seria o fato deste fazer parte do bairro de São Conrado. Daí tomam vulto na agenda pública às discussões sobre remoção de favelas.
Paralelamente, a cidade se vê cada vez mais obrigada a verticalizar-se e seguimentar-se. Tais mudanças estão impressas nos redesnhos das casas, das praças, das ruas, dos bairros e da própria cidade, uma arquitetura do medo, como aponta Bauman:
´´A arquitetura do medo e da intimidação espalha-se pelos espaços públicos das cidades transformando-a sem cessar – embora furtivamente – em áreas extremamente vigiadas, dia e noite.``(BAUMAN, 63)
Assim, essa transição da cidade de espaços públicos para cidade de espaços ordenados, quantitativa e qualitativamente, imprime segmentações locais, preconceitos e legitima espacialmente a desigualdade, reduzindo a capacidade de descoberta, convivência, construção e aceitação do e com o outro. É o espaço público que oferece o momento físico e psíquico de encontro com a diferença, o diverso. E, por isso geopoliticamente, quando representado em dados ou nas políticas públicas de planejamento urbano, não deve reforçar diferenças isoladas, mas, procurar entender como tais diferensas estão conectadas nas redes relacionais sócio-políticas. Não reforçar uma realidade onde a ´´tendência para retirar-se dos espaços públicos para refugiar-se em ilhas de uniformidade acaba se transformando no maior obstáculo para viver com a diferença, e, desse modo, enfraquece os diálogos e pactos`` (Bauman, 71) e, sim, respeitar o fato de que, com o passar do tempo ´´a exposição à diferença transforma-se em fator decisivo para uma convivência feliz, fazendo secar as raízes urbanas do medo``(71), como aponta Bauman.
Viver com estrangeiros
E, terminando, o ultimo capitulo do livro aponta para uma reflexão sobre as fronteiras demarcadas pela recusa à alteridade. E, nesse sentido explica que:
´´justamente porque se demarcam fronteiras é que, de repente, as diferenças emergem, que as percebemos e nos tornamos conscientes delas. Melhor dizendo, vamos em busca de diferenças justamente para legitimar fronteiras``(BAUMAN, 75)
Tais fronteiras – diferenças – estão representadas na figura do estrangeiro. Porém, assim como todo lugar tem um estrangeiro, todo estrangeiro tem um lugar. Ou seja, ninguém está livre de ser o estrangeiro. Ninguém está livre de se ver no outro, de ser interpretado pelo outro. Porém, algo que tão belamente potencializa a (re)descoberta de si e do outro, no espaço fragmentado e seguimentado, só reforça a suspeito de si e do outro.
A ´´suspeita``, na sociedade contemporânea, é a ´´sentença``, pois nela nunca se é absolvido completamente e nunca se é completamente culpado, gerando maior preocupação e, conseqüentemente, maiores necessidades de controle, manipulação e ordenação, assim como uma contínua, crescente e desesperadora instabilidade, promotora de uma insegurança generalizante. Inviabilizando cada vez mais e a descoberta do e com o ´´outro`` - a alteridade torna-se intransitória.
Nesse contexto, partindo do princípio que a identidade se constrói a partir de um ou mais modelos, Quais são as opções de modelo? Quais opções de modelos são dadas? Quais opções de modelos são possíveis?
Escolher um modelo é um ato orgânico contínuo entre o indivíduo o mundo que o cerca, ou melhor, o mundo que ele aprende, que lhe é apresentado. Daí tornam-se chave estas duas ações: orgânica e contínua. Orgânica no sentido sócio-biológico das relações sociais, onde os órgãos, além de se originarem de uma célula que, em comunhão com outras, posteriormente, formará o tecido que a estes, conseqüentemente dará origem, fazem partem de um sistema. Sistema este, que unido a outros sistemas dá origem a um corpo – corpo social. E o fato deste corpo ser contínuo, além de se remeter a todas as suas categorias processuais (célula, tecido, órgão, sistema), refere-se ao fato de que este tem, em sua natureza, a necessidade de crescer, desenvolver, reproduzir, multiplicar, evoluir. Sendo assim, qualquer falha na comunicação e na continuidade deste corpo social pode acarretar em males físicos e-ou psíquicos, objetivos e-ou subjetivos, reais e-ou virtuais a toda sociedade. Afinal, como exigir a plenitude de um corpo sem a plenitude de suas células, seus tecidos, seus órgãos, seus sistemas, sua psique, seu espírito, seu imaginário?
Portanto, é importante ressaltar que as conseqüências da opção de um modelo são inevitáveis, porém, reversíveis no percurso da constante (re)formação e transformação do indivíduo. Pois este, enquanto atuante, força criativa e criadora, nos processos de transformação social, é quem transpõe e resignifica o modelo ao invés de reproduzi-lo.
[1] Vedados porque desencorajam as pessoas a ficar por perto ou impedem sua entrada (Bauman, 84)
[2] Atlas escolar da cidade do Rio de Janeiro. Produzido no mandato do prefeito Luiz Paulo Conde, em 2000.
[3] No mapa anteriormente referido encontram-se os seguintes dados sobre as duas áreas colocadas em questão, São Conrado e Vidigal, respectivamente: Superfície (km2): 6,37 – 1,91; População (habitantes): 13.9996 – 12.052; Densidade demográfica (hab. – Km2): 2.200 – 6.316,6; Renda média (salário mínimo): 22,5 – 3,1.
05/07/2009
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comentários
Pessoal,
Segue abaixo o texto da aula sobre Gestão Cultural. A sala será a 207 do bloco O.
abraços e até lá!
** Arquiteto e urbanista, doutor em História, professor do curso de graduação em Produção Cultural da Universidade Federal Fluminense (UFF), coordenador do Laboratório de Ações Culturais (Labac-UFF), coordenador do Ponto de Cultura Niterói Oceânico (Ministério da Cultura/CCARO) e presidente do Conselho de Cultura de Niterói (2008-2010). E-mail: lafrodrigues@vm.uff.br.
Segue abaixo o texto da aula sobre Gestão Cultural. A sala será a 207 do bloco O.
abraços e até lá!
O campo da Gestão Cultural
Luiz Augusto F. Rodrigues**
GESTÃO CULTURAL é um termo relativamente recente no cenário cultural brasileiro. A gestão pressupõe procedimentos administrativos e operacionais para a gerência de processos no campo da Cultura e da Arte. A gestão deve estar amparada num claro posicionamento conceitual a orientar seus objetivos.
Para melhor conceituarmos o campo da Gestão Cultural, podemos articulá-lo à idéia de mediação de processos de produção material e imaterial de bens culturais e de mediação de agentes sociais os mais diversos. Mediação que busca estimular os processos de criação e de fruição de bens culturais, assim como estimular as práticas de coesão social e de sociabilidade.
O gestor da cultura é alguém que estabelece com seu objeto e com os sujeitos nele envolvidos relações de compartilhamento de gestão e de responsabilidades. Alguém que entenda as práticas culturais como processos –dinâmicos, ambíguos e sujeitos a significações diversas. Entendendo que a realidade nos fornece a possibilidade que precisamos para ver e aprender com ela, sendo justamente este espaço de mediação que a torna concreta, conquanto possamos abrir devidamente olhos e ouvidos. Sentir potenciais, responder anseios e mesmo ampliá-los, reconhecer diferentes e particularizados modos de agir e de sentir. Planejar segundo os fazeres e os quereres que os diversos indivíduos e grupos deixam aflorar de seus cotidianos.
Buscando ser mais objetivo, pode-se dizer que a GESTÃO CULTURAL articula planejamento, operacionalização e mediação. Planejamento de eventos, de programas, de ações, de processos e de políticas em cultura. Operacionalização técnica, financeira, física e humana. Mediação de agentes diversos: governamentais, não-governamentais e comunitários; empresariais, cooperativados ou informais; produtores, viabilizadores e fruidores. E segundo perspectivas temporais que vão do curto ao longo prazo.
A gestão cultural pressupõe a formulação dos planos e também dos conceitos que os norteiam. Nesse processo, atuam concretamente planejadores e usuários, que buscam garantir a sustentabilidade das ações. Na gestão, trabalha-se por meio de ações integradas e estruturais, estruturantes e instituintes. Compreende noções básicas de fomento cultural (não somente a satisfação das necessidades culturais das populações envolvidas, mas também a ampliação dessa demanda); de preservação, resgate e vitalização de aspectos de sociabilidade e qualidade de vida; e a própria manutenção da vida com justiça social.
Alguns eixos temáticos devem estar inseridos nos processos de gestão cultural. Vejamos alguns.
Capital social
Capital social está ligado à capacidade de interação entre os indivíduos de um grupo, inclusive com novos participantes, em diferentes situações (no trabalho, na vizinhança, na sociedade). Envolve a circulação de idéias e a (re)formulação de práticas. Pressupõe reconhecer o outro e os comportamentos, as intenções, os valores, os conhecimentos que compõem o meio social e a capacidade de interagir em outros meios. Está intrínseco, nessas relações, compreender o papel das instituições nos meios sociais. Enfim, são as relações entre as pessoas e destas com as instituições – mediadoras dessas interações, tais como clubes, igrejas, empresas, governos, famílias, escolas etc. Isso implica confiança e adesão a normas e condutas às quais se sujeitam os indivíduos em associações locais e em redes, tanto as existentes quanto as potenciais; envolve o espírito gregário e de cooperação no interior dos grupos sociais.
O capital social aponta para a capacidade de os grupos, bem como os indivíduos de um grupo, se reconhecerem e confiarem uns nos outros. É, portanto, um elemento fundamental para o desenvolvimento de projetos coletivos.
Governança
Governança é um conceito que vai além da idéia de governabilidade. Enquanto esta última busca suporte político e econômico, a primeira pressupõe a participação da sociedade em gestões compartilhadas. Arranjos políticos e coligações partidárias podem aumentar a governabilidade. A capacidade técnica e o aporte financeiro fornecem importantes instrumentos de governo, mas não são suficientes. É necessário que haja o envolvimento dos diferentes atores sociais nos processos de elaboração de propostas e de execução de ações. É esse o quadro que vem se fortalecendo a partir dos anos 1990. Os processos de redemocratização vieram acompanhados da idéia de fortalecer e reconhecer os micro-poderes. Governos locais, movimentos associativos e ONGs vêm buscando estratégias para um caminhar conjunto.
Para que haja participação política e governança, é necessário que o Estado esteja presente para toda a sociedade – fato que nem sempre ocorre, sobretudo no Brasil – e que os mais fortes não sobrepujem os mais fracos. Governança é mediação entre governo e população. Concretiza-se por meio de instrumentos participativos e da gestão descentralizada.
Cabem algumas ressalvas. De nada adianta os governos “concederem” o direito à participação social (via conselhos comunitários, orçamento participativo, entre outros), mas não criarem condições amplas para o exercício e a continuidade desse direito. Algumas estratégias podem ser apontadas: qualificação do quadro técnico, capacitação da população, estruturação dos equipamentos sociais pertinentes, ou seja, organizar uma base técnica e material para o funcionamento dos instrumentos participativos.
Há, entretanto, uma longa estrada a ser vencida. Muitas ações de governo, em seus diferentes níveis, ainda estão calcadas nos arranjos políticos e em ações verticalizadas. Muitas ONGs, por exemplo, ocupam ainda o lugar do Estado nestes tempos de falácia neoliberal, em vez de se constituírem como associações complementares e co-participantes nos processos sociopolíticos. Os conselhos são “novidades” crescentes, mas quais são seus níveis decisórios? Como são constituídos? Que níveis de confiança mútua estabelecem?
Participação
Quem delega poderes não pode reclamar!
Para participar, é necessário fazer parte, estar incluído!
Participação e esfera pública são idéias inseparáveis. Fazem parte da própria concepção de política. É necessário refletir sobre esse termo.
Política nos remete à pólis – idéia grega que expressa a vida coletiva e o exercício de nossa esfera pública. Refere-se, então, às negociações entre os indivíduos, ao embate de nossos diálogos, a nossas falas e ações possíveis para além dos foros íntimo e privado, a nossas representações sociais coletivas. Entretanto, nossa cultura política se encontra esgarçada em sua dupla composição: enquanto cultura e enquanto política. A cultura como representação simbólica dos valores das sociedades mostra-se esgarçada enquanto possibilidade de reforço da coesão social. Os processos que (con)formam as representações sociais estão ligados à ação comunicativa e às práticas sociais e públicas (em suma, aos sistemas significantes, verbais e não verbais), como os diálogos, os rituais, os processos produtivos, as instituições, as artes, os padrões culturais, ou seja, as mediações sociais em seus diferentes espaços. Nossa sociedade informacional pós-industrial é uma sociedade da cultura de massa (e não da cultura das massas, com suas singularidades coletivas). Os recursos que ecoam nossas “falas” são amplos, velozes e tecnicamente sofisticados. Contudo, não reverberam nossas práticas públicas e coletivas, uma vez que pouco as exercitamos. Portanto, antes de discutir se as políticas são eficientes ou não, é necessário estabelecer que critérios norteiam essa eficiência.
É no encontro entre as esferas pública e privada que são construídas as subjetividades necessárias para a constituição da trama social. No dia-a-dia e no engajamento entre os diversos agentes se formam nossas representações sociais. A vida pública é um elemento intrínseco à plena construção da vida privada.
Redes sociais
O que se percebe no mundo contemporâneo, em especial no Brasil, é uma crescente perda de autogestão, além de uma banalização da esfera pública dos indivíduos. O quadro econômico de acirrado abismo social tende a reduzir ou quase anular a auto-estima das pessoas e sua auto-percepção e valorização pessoal, fatos que quase inviabilizam qualquer ação que busque uma requalificação social.
Creio que nosso desafio, hoje, é alcançar formas que, para além de preservar, democratizar e incentivar modos e práticas culturais diversificados, criem estratégias que reforcem o exercício público e político dos diversos atores sociais, de forma que todos e cada um possam ser protagonistas de si mesmos.
Creio, firmemente, que nosso desafio é conseguir constituir redes diversificadas de agentes sociais. O próprio conceito de rede reforça a possibilidade de êxito de qualquer proposta: rede que se estabelece a partir do comprometimento e do envolvimento das mais diversas esferas. É esse trabalho de “varejo” que se pode efetivamente construir novas possibilidades de caminhos conjuntos. Uma ação que se desdobra nos usuários mais diretos e destes com suas redes mais particularizadas que, pouco a pouco, podem se agregar aos “fios” anteriores. Dessa nova trama serão irradiados novos fios (que a ela se unem) e assim sucessivamente, tal qual nós de uma rede que se vai tecendo.
O que mais justifica e possibilita a sustentabilidade (entendida como a possibilidade de continuidade das ações) é o envolvimento das pessoas ou grupos em suas próprias condições de reprodução. O capital social é que gera as condições para que uma sociedade crie e desenvolva seus próprios fins, com governança e participação, considerando que os projetos coletivos necessitam do engajamento de muitos e que isso será alcançado se respaldado pela confiança coletiva e esta, pela capacidade de inclusão do outro como parceiro.
Lugar e não lugar
A cidade é uma construção material e, sobretudo, um espaço que resulta dos modos culturais dos que nela habitam e dela participam. Isso a transforma em um lugar apropriado afetivamente, ainda que sujeito a representações ideologicamente constituídas.
O espaço urbano reflete modos particularizados de vida social e sociabilidades (expressos, principalmente, nos espaços públicos de ruas e praças). É também, e como reflexo, o espaço das contradições, conflitos e ambiguidades. Um tecido social em crise acirra o caos urbano – violência, pobreza, individualismo, isolamento, privatização da esfera pública. Os mecanismos para a reversão de tal situação precisam ser identificados por meio de condutas metodológicas que busquem flagrar potencialidades para uma requalificação dos espaços públicos enquanto espaços de sociabilidades múltiplas e que identifiquem estratégias para um planejamento urbano que, em vez de reforçar experiências homogeneizadas (e ao mesmo tempo fragmentárias), possa reforçar a produção da cidade enquanto lugar antropológico permeado de sentido e memória.
Lugar pode ser entendido como expressão da singularidade, com toda a carga identitária (identidade com e do lugar), afetiva e simbólica que este assume.
Não lugar pode ser entendido pela ausência de referências com identidade própria e com a possibilidade de um relacionamento efetivo entre indivíduo e território. O não lugar se constitui de espaços de fraca apropriação e de relações efêmeras entre as pessoas. Tem menos a ver com cenários padronizados do que com seu oposto: a espetacularização dos espaços.
Lugar é pausa e contato. É real e singular. Gera experiência. É espaço usado e vivido. Não lugar é movimento e indiferença. É artificial e universal. Gera virtualidade. É espaço consumido e observado.
Em suma, deve-se buscar refletir sobre as condições de nossa urbanidade e nossa sociabilidade; refletir sobre as potencialidades e dificuldades para a qualificação e a vitalização dos espaços e sobre a gestão cultural do espaço da cidade (entendida pelo valor de uso dos lugares, e não pelo valor de troca em que a própria cidade é tomada como produto a ser consumido de maneira efêmera).
Gestão compartilhada da cultura
Pode-se entender cultura como um processo de sedimentação de memórias, a longo ou médio prazo, que opera com as diferenças de toda a sociedade. Se entendida dessa forma, seus propósitos são contrários ao da lógica de mercado – tomando esta por sua busca de imediatismo e padronização.
Se o agente da cultura for exclusivamente o Estado, a tendência é desenvolver políticas culturais marcadas por um “patrimonialismo estadista” ou por um “dirigismo estatal”. Se o agente for exclusivamente o mercado, culminaria em um “mercantilismo cultural” ou na “privatização da vida cultural”.
Ações consorciadas e conselhos podem se mostrar ferramentas importantes. Parcerias público-privadas, governo-sociedade e formas diversas de parceria e compartilhamento precisam ser buscadas.
O Brasil vivenciou durante muito tempo a falência de políticas sociais públicas inclusivas, ficando sob a ação sociocultural de organizações não governamentais. São mais de cem mil ONGs e centenas de milhares de voluntários. Caminho que, sozinho, também não resolve.
O aterrorizante “abismo social” que marca a sociedade brasileira tem mobilizado cada vez mais ações de segmentos os mais diversificados. Quando nos detemos nos índices de pobreza e de ausência de condições mínimas de vida, vemos um quadro no mínimo estarrecedor.
Em face de tanta carência, não podemos pensar isoladamente na arte, na cultura, na educação, na sociabilidade, na exclusão social ou em outros tantos “nas”. Não podemos implementar ações isoladas. Trata-se de prover e garantir a própria cidadania. Cultura e cidadania seriam como que palavras de ordem.
A história da modernidade buscou regimentar a esfera estatal como representante única da esfera pública. Pensamentos contrários buscariam atribuir a todo indivíduo três atuações básicas: pública, privada e íntima. Desse modo, as políticas culturais, sendo da esfera pública, estariam ligadas tanto ao Estado quanto à sociedade inteira.
Não há, portanto, como dissociar a ação cultural de noções ligadas à cidadania, à justiça social, à afirmação da sociedade civil e da ação pública ou mesmo à ética. Devemos somar todas as forças possíveis, conclamar os diversos agentes sociais e a sociedade.
Que papel a cultura pode ter na mudança da realidade? Como fazer belos conceitos saírem do papel (empoderamento, protagonismo social, responsabilidade social, inclusão social, sustentabilidade, capacitação profissional e geração de renda e emprego através da cultura)? Como estabelecer e fortalecer redes sociais? Como estimular e incorporar a governança e o capital social como estratégias para nossas ações? Como promover a ética como a estética de vida dos indivíduos? São desafios que nos são lançados diariamente enquanto agentes da cultura.
EMENTA:
Cultura como processo. Gestão cultural e seus agentes. Conceitos correlatos e constituintes da gestão cultural. Gestão cultural e participação.
BIBLIOGRAFIA DE APOIO:
ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1983.
AUGÉ, Marc. Não-lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Campinas, SP: Papirus, 1994.
CHAUÍ, Marilena. Considerações sobre a democracia e alguns dos obstáculos à sua concretização. In: Seminário Os sentidos da democracia e da participação. São Paulo: Instituto Polis.
HUYSSEN, Andréas. Seduzidos pela memória: arquitetura, monumentos, mídia. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2000.
JOVCHELOVITCH, Sandra. Representações sociais e esfera pública: a construção simbólica dos espaços públicos no Brasil. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.
RATTNER, Henrique. Prioridade: construir o capital social – os descaminhos do desenvolvimento. (2000) Disponível em http://www.abdl.org.br/rattner.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade. São Paulo: Cortez, 1996.
SEVCENKO, Nicolau. O desafio das tecnologias à cultura democrática. In PALLAMIN, Vera M. (org.). Cidade e cultura: esfera pública e transformação urbana. São Paulo: Estação Liberdade, 2002. p. 37-47.
Luiz Augusto F. Rodrigues**
GESTÃO CULTURAL é um termo relativamente recente no cenário cultural brasileiro. A gestão pressupõe procedimentos administrativos e operacionais para a gerência de processos no campo da Cultura e da Arte. A gestão deve estar amparada num claro posicionamento conceitual a orientar seus objetivos.
Para melhor conceituarmos o campo da Gestão Cultural, podemos articulá-lo à idéia de mediação de processos de produção material e imaterial de bens culturais e de mediação de agentes sociais os mais diversos. Mediação que busca estimular os processos de criação e de fruição de bens culturais, assim como estimular as práticas de coesão social e de sociabilidade.
O gestor da cultura é alguém que estabelece com seu objeto e com os sujeitos nele envolvidos relações de compartilhamento de gestão e de responsabilidades. Alguém que entenda as práticas culturais como processos –dinâmicos, ambíguos e sujeitos a significações diversas. Entendendo que a realidade nos fornece a possibilidade que precisamos para ver e aprender com ela, sendo justamente este espaço de mediação que a torna concreta, conquanto possamos abrir devidamente olhos e ouvidos. Sentir potenciais, responder anseios e mesmo ampliá-los, reconhecer diferentes e particularizados modos de agir e de sentir. Planejar segundo os fazeres e os quereres que os diversos indivíduos e grupos deixam aflorar de seus cotidianos.
Buscando ser mais objetivo, pode-se dizer que a GESTÃO CULTURAL articula planejamento, operacionalização e mediação. Planejamento de eventos, de programas, de ações, de processos e de políticas em cultura. Operacionalização técnica, financeira, física e humana. Mediação de agentes diversos: governamentais, não-governamentais e comunitários; empresariais, cooperativados ou informais; produtores, viabilizadores e fruidores. E segundo perspectivas temporais que vão do curto ao longo prazo.
A gestão cultural pressupõe a formulação dos planos e também dos conceitos que os norteiam. Nesse processo, atuam concretamente planejadores e usuários, que buscam garantir a sustentabilidade das ações. Na gestão, trabalha-se por meio de ações integradas e estruturais, estruturantes e instituintes. Compreende noções básicas de fomento cultural (não somente a satisfação das necessidades culturais das populações envolvidas, mas também a ampliação dessa demanda); de preservação, resgate e vitalização de aspectos de sociabilidade e qualidade de vida; e a própria manutenção da vida com justiça social.
Alguns eixos temáticos devem estar inseridos nos processos de gestão cultural. Vejamos alguns.
Capital social
Capital social está ligado à capacidade de interação entre os indivíduos de um grupo, inclusive com novos participantes, em diferentes situações (no trabalho, na vizinhança, na sociedade). Envolve a circulação de idéias e a (re)formulação de práticas. Pressupõe reconhecer o outro e os comportamentos, as intenções, os valores, os conhecimentos que compõem o meio social e a capacidade de interagir em outros meios. Está intrínseco, nessas relações, compreender o papel das instituições nos meios sociais. Enfim, são as relações entre as pessoas e destas com as instituições – mediadoras dessas interações, tais como clubes, igrejas, empresas, governos, famílias, escolas etc. Isso implica confiança e adesão a normas e condutas às quais se sujeitam os indivíduos em associações locais e em redes, tanto as existentes quanto as potenciais; envolve o espírito gregário e de cooperação no interior dos grupos sociais.
O capital social aponta para a capacidade de os grupos, bem como os indivíduos de um grupo, se reconhecerem e confiarem uns nos outros. É, portanto, um elemento fundamental para o desenvolvimento de projetos coletivos.
Governança
Governança é um conceito que vai além da idéia de governabilidade. Enquanto esta última busca suporte político e econômico, a primeira pressupõe a participação da sociedade em gestões compartilhadas. Arranjos políticos e coligações partidárias podem aumentar a governabilidade. A capacidade técnica e o aporte financeiro fornecem importantes instrumentos de governo, mas não são suficientes. É necessário que haja o envolvimento dos diferentes atores sociais nos processos de elaboração de propostas e de execução de ações. É esse o quadro que vem se fortalecendo a partir dos anos 1990. Os processos de redemocratização vieram acompanhados da idéia de fortalecer e reconhecer os micro-poderes. Governos locais, movimentos associativos e ONGs vêm buscando estratégias para um caminhar conjunto.
Para que haja participação política e governança, é necessário que o Estado esteja presente para toda a sociedade – fato que nem sempre ocorre, sobretudo no Brasil – e que os mais fortes não sobrepujem os mais fracos. Governança é mediação entre governo e população. Concretiza-se por meio de instrumentos participativos e da gestão descentralizada.
Cabem algumas ressalvas. De nada adianta os governos “concederem” o direito à participação social (via conselhos comunitários, orçamento participativo, entre outros), mas não criarem condições amplas para o exercício e a continuidade desse direito. Algumas estratégias podem ser apontadas: qualificação do quadro técnico, capacitação da população, estruturação dos equipamentos sociais pertinentes, ou seja, organizar uma base técnica e material para o funcionamento dos instrumentos participativos.
Há, entretanto, uma longa estrada a ser vencida. Muitas ações de governo, em seus diferentes níveis, ainda estão calcadas nos arranjos políticos e em ações verticalizadas. Muitas ONGs, por exemplo, ocupam ainda o lugar do Estado nestes tempos de falácia neoliberal, em vez de se constituírem como associações complementares e co-participantes nos processos sociopolíticos. Os conselhos são “novidades” crescentes, mas quais são seus níveis decisórios? Como são constituídos? Que níveis de confiança mútua estabelecem?
Participação
Quem delega poderes não pode reclamar!
Para participar, é necessário fazer parte, estar incluído!
Participação e esfera pública são idéias inseparáveis. Fazem parte da própria concepção de política. É necessário refletir sobre esse termo.
Política nos remete à pólis – idéia grega que expressa a vida coletiva e o exercício de nossa esfera pública. Refere-se, então, às negociações entre os indivíduos, ao embate de nossos diálogos, a nossas falas e ações possíveis para além dos foros íntimo e privado, a nossas representações sociais coletivas. Entretanto, nossa cultura política se encontra esgarçada em sua dupla composição: enquanto cultura e enquanto política. A cultura como representação simbólica dos valores das sociedades mostra-se esgarçada enquanto possibilidade de reforço da coesão social. Os processos que (con)formam as representações sociais estão ligados à ação comunicativa e às práticas sociais e públicas (em suma, aos sistemas significantes, verbais e não verbais), como os diálogos, os rituais, os processos produtivos, as instituições, as artes, os padrões culturais, ou seja, as mediações sociais em seus diferentes espaços. Nossa sociedade informacional pós-industrial é uma sociedade da cultura de massa (e não da cultura das massas, com suas singularidades coletivas). Os recursos que ecoam nossas “falas” são amplos, velozes e tecnicamente sofisticados. Contudo, não reverberam nossas práticas públicas e coletivas, uma vez que pouco as exercitamos. Portanto, antes de discutir se as políticas são eficientes ou não, é necessário estabelecer que critérios norteiam essa eficiência.
É no encontro entre as esferas pública e privada que são construídas as subjetividades necessárias para a constituição da trama social. No dia-a-dia e no engajamento entre os diversos agentes se formam nossas representações sociais. A vida pública é um elemento intrínseco à plena construção da vida privada.
Redes sociais
O que se percebe no mundo contemporâneo, em especial no Brasil, é uma crescente perda de autogestão, além de uma banalização da esfera pública dos indivíduos. O quadro econômico de acirrado abismo social tende a reduzir ou quase anular a auto-estima das pessoas e sua auto-percepção e valorização pessoal, fatos que quase inviabilizam qualquer ação que busque uma requalificação social.
Creio que nosso desafio, hoje, é alcançar formas que, para além de preservar, democratizar e incentivar modos e práticas culturais diversificados, criem estratégias que reforcem o exercício público e político dos diversos atores sociais, de forma que todos e cada um possam ser protagonistas de si mesmos.
Creio, firmemente, que nosso desafio é conseguir constituir redes diversificadas de agentes sociais. O próprio conceito de rede reforça a possibilidade de êxito de qualquer proposta: rede que se estabelece a partir do comprometimento e do envolvimento das mais diversas esferas. É esse trabalho de “varejo” que se pode efetivamente construir novas possibilidades de caminhos conjuntos. Uma ação que se desdobra nos usuários mais diretos e destes com suas redes mais particularizadas que, pouco a pouco, podem se agregar aos “fios” anteriores. Dessa nova trama serão irradiados novos fios (que a ela se unem) e assim sucessivamente, tal qual nós de uma rede que se vai tecendo.
O que mais justifica e possibilita a sustentabilidade (entendida como a possibilidade de continuidade das ações) é o envolvimento das pessoas ou grupos em suas próprias condições de reprodução. O capital social é que gera as condições para que uma sociedade crie e desenvolva seus próprios fins, com governança e participação, considerando que os projetos coletivos necessitam do engajamento de muitos e que isso será alcançado se respaldado pela confiança coletiva e esta, pela capacidade de inclusão do outro como parceiro.
Lugar e não lugar
A cidade é uma construção material e, sobretudo, um espaço que resulta dos modos culturais dos que nela habitam e dela participam. Isso a transforma em um lugar apropriado afetivamente, ainda que sujeito a representações ideologicamente constituídas.
O espaço urbano reflete modos particularizados de vida social e sociabilidades (expressos, principalmente, nos espaços públicos de ruas e praças). É também, e como reflexo, o espaço das contradições, conflitos e ambiguidades. Um tecido social em crise acirra o caos urbano – violência, pobreza, individualismo, isolamento, privatização da esfera pública. Os mecanismos para a reversão de tal situação precisam ser identificados por meio de condutas metodológicas que busquem flagrar potencialidades para uma requalificação dos espaços públicos enquanto espaços de sociabilidades múltiplas e que identifiquem estratégias para um planejamento urbano que, em vez de reforçar experiências homogeneizadas (e ao mesmo tempo fragmentárias), possa reforçar a produção da cidade enquanto lugar antropológico permeado de sentido e memória.
Lugar pode ser entendido como expressão da singularidade, com toda a carga identitária (identidade com e do lugar), afetiva e simbólica que este assume.
Não lugar pode ser entendido pela ausência de referências com identidade própria e com a possibilidade de um relacionamento efetivo entre indivíduo e território. O não lugar se constitui de espaços de fraca apropriação e de relações efêmeras entre as pessoas. Tem menos a ver com cenários padronizados do que com seu oposto: a espetacularização dos espaços.
Lugar é pausa e contato. É real e singular. Gera experiência. É espaço usado e vivido. Não lugar é movimento e indiferença. É artificial e universal. Gera virtualidade. É espaço consumido e observado.
Em suma, deve-se buscar refletir sobre as condições de nossa urbanidade e nossa sociabilidade; refletir sobre as potencialidades e dificuldades para a qualificação e a vitalização dos espaços e sobre a gestão cultural do espaço da cidade (entendida pelo valor de uso dos lugares, e não pelo valor de troca em que a própria cidade é tomada como produto a ser consumido de maneira efêmera).
Gestão compartilhada da cultura
Pode-se entender cultura como um processo de sedimentação de memórias, a longo ou médio prazo, que opera com as diferenças de toda a sociedade. Se entendida dessa forma, seus propósitos são contrários ao da lógica de mercado – tomando esta por sua busca de imediatismo e padronização.
Se o agente da cultura for exclusivamente o Estado, a tendência é desenvolver políticas culturais marcadas por um “patrimonialismo estadista” ou por um “dirigismo estatal”. Se o agente for exclusivamente o mercado, culminaria em um “mercantilismo cultural” ou na “privatização da vida cultural”.
Ações consorciadas e conselhos podem se mostrar ferramentas importantes. Parcerias público-privadas, governo-sociedade e formas diversas de parceria e compartilhamento precisam ser buscadas.
O Brasil vivenciou durante muito tempo a falência de políticas sociais públicas inclusivas, ficando sob a ação sociocultural de organizações não governamentais. São mais de cem mil ONGs e centenas de milhares de voluntários. Caminho que, sozinho, também não resolve.
O aterrorizante “abismo social” que marca a sociedade brasileira tem mobilizado cada vez mais ações de segmentos os mais diversificados. Quando nos detemos nos índices de pobreza e de ausência de condições mínimas de vida, vemos um quadro no mínimo estarrecedor.
Em face de tanta carência, não podemos pensar isoladamente na arte, na cultura, na educação, na sociabilidade, na exclusão social ou em outros tantos “nas”. Não podemos implementar ações isoladas. Trata-se de prover e garantir a própria cidadania. Cultura e cidadania seriam como que palavras de ordem.
A história da modernidade buscou regimentar a esfera estatal como representante única da esfera pública. Pensamentos contrários buscariam atribuir a todo indivíduo três atuações básicas: pública, privada e íntima. Desse modo, as políticas culturais, sendo da esfera pública, estariam ligadas tanto ao Estado quanto à sociedade inteira.
Não há, portanto, como dissociar a ação cultural de noções ligadas à cidadania, à justiça social, à afirmação da sociedade civil e da ação pública ou mesmo à ética. Devemos somar todas as forças possíveis, conclamar os diversos agentes sociais e a sociedade.
Que papel a cultura pode ter na mudança da realidade? Como fazer belos conceitos saírem do papel (empoderamento, protagonismo social, responsabilidade social, inclusão social, sustentabilidade, capacitação profissional e geração de renda e emprego através da cultura)? Como estabelecer e fortalecer redes sociais? Como estimular e incorporar a governança e o capital social como estratégias para nossas ações? Como promover a ética como a estética de vida dos indivíduos? São desafios que nos são lançados diariamente enquanto agentes da cultura.
EMENTA:
Cultura como processo. Gestão cultural e seus agentes. Conceitos correlatos e constituintes da gestão cultural. Gestão cultural e participação.
BIBLIOGRAFIA DE APOIO:
ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1983.
AUGÉ, Marc. Não-lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Campinas, SP: Papirus, 1994.
CHAUÍ, Marilena. Considerações sobre a democracia e alguns dos obstáculos à sua concretização. In: Seminário Os sentidos da democracia e da participação. São Paulo: Instituto Polis.
HUYSSEN, Andréas. Seduzidos pela memória: arquitetura, monumentos, mídia. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2000.
JOVCHELOVITCH, Sandra. Representações sociais e esfera pública: a construção simbólica dos espaços públicos no Brasil. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.
RATTNER, Henrique. Prioridade: construir o capital social – os descaminhos do desenvolvimento. (2000) Disponível em http://www.abdl.org.br/rattner.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade. São Paulo: Cortez, 1996.
SEVCENKO, Nicolau. O desafio das tecnologias à cultura democrática. In PALLAMIN, Vera M. (org.). Cidade e cultura: esfera pública e transformação urbana. São Paulo: Estação Liberdade, 2002. p. 37-47.
** Arquiteto e urbanista, doutor em História, professor do curso de graduação em Produção Cultural da Universidade Federal Fluminense (UFF), coordenador do Laboratório de Ações Culturais (Labac-UFF), coordenador do Ponto de Cultura Niterói Oceânico (Ministério da Cultura/CCARO) e presidente do Conselho de Cultura de Niterói (2008-2010). E-mail: lafrodrigues@vm.uff.br.
28/05/2009
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Introdução à Produção Cultural
por Vanessa Rocha
Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense. Professora substituta do curso na área de Planejamento Cultural. Produtora cultural da UFRJ, sócia e gerente de projetos da Mafuá Produções Culturais.
1. Introdução
A produção cultural, assim designada como um saber específico, é uma atividade recente. Embora a produção de atividades culturais exista há muito tempo, a criação de um saber determinado atendeu a realidade que vinha se configurando a partir das discussões sobre cultura no país e no mundo com o crescimento das indústrias culturais a partir da década de 80. O primeiro curso brasileiro de graduação em produção cultural, o curso da UFF, nasceu em 1996 fruto desse contexto, percebendo e antecipando essa realidade que começa a ser construída por artistas, gestores, administradores e os já intitulados produtores culturais. Desde então, estamos acompanhando uma sistematização cada vez maior desse saber através da criação de cursos de produção e gestão cultural e de procedimentos padronizados de construção de projetos e programas culturais.
Para refletirmos a produção cultural como saber é importante destacar que a palavra cultura é também recente, criada no século XIX na Europa, o que aponta para uma necessidade de nomear aquilo que os europeus vinham “descobrindo” pelo mundo mas não conseguiam caracterizar. Ou seja, nasce para dar conta da diferenciação entre aquilo que era o modo de vida europeu e o que era o modo de vida do “selvagem”, do “outro”. O século XX é assim marcado, dentre outras coisas, pelo uso disso que se começou a chamar de cultura, que foi desenvolvido pela antropologia e muito utilizado por governos e empresas de todo mundo. No Brasil a palavra aparece com veemência na fala dos intelectuais do modernismo prosseguindo até a criação de um Ministério de Cultura na década de 80, onde ganha sua legitimidade governamental definitiva e é incorporada de vez a fala dos mais diferentes grupos do país que reivindicam para si políticas culturais específicas.
Félix Guattari, um pensador francês que construiu um pensamento liberto e libertário em andanças pelo mundo, muitas delas pelo Brasil e América Latina, diz que cultura é um conceito reacionário, ou seja, seu uso está sempre atrelado a política e faz parte de um processo de subjetivação. O pensador defende a existência de três culturas: a cultura-valor; a cultura-alma-coletiva; e a cultura-mercadoria. Evidencia, assim, aquilo que Foucault, também pensador francês e um dos mais importantes do século XX, já havia dito: que nenhum conceito existe por si mesmo até que seja configurado na prática. A cultura, nesse sentido, só existe enquanto algo que se pratica, que é ação, e então ela ganha seu significado. Para ele, hoje a cultura estaria no âmbito do mercado, seria a peça participante da sujeição subjetiva do que ele chama de Capitalismo Mundial Integrado, enquanto o capital se responsabilizaria por uma sujeição material. É nesse sentido que fica difícil, por exemplo, reivindicarmos uma cultura e, logo, uma política, pois falar de cultura hoje, para ele, é correr o risco de ser capturado como nicho de mercado, quando não como um gueto para o qual as políticas públicas se voltam mas não conseguem atender devido as próprias limitações do Estado como instituição em crise e como lógica de representação.
Assim, atravessando toda essa discussão, vamos falar de modos de vida. Se há um saber configurado, é possível reconfigurá-lo, usá-lo de acordo com os interesses que nos cabem. Se falar em cultura é um problema, falemos em expressões singulares que merecem espaço em uma realidade que tenta nos mostrar um rosto homogêneo e nos convencer que um padrão de vida e de indivíduo deve se sobrepor. Falemos em diferença e pensemos a produção cultural como um espaço de realização dessas diferenças, um espaço de multiplicidade, este movimento tão caro que falta ao discurso da diversidade tão difundido hoje em dia. Desta forma, abordaremos na aula a produção cultural como ação política, atividade econômica, e como prática, para fecharmos com um entendimento da produção cultural no país por uma perspectiva histórica.
2. A produção cultural como ação política
Nenhuma ação ou prática deixa de ser política, uma vez que são discursos sendo propagados, ordenados, logo, constituindo saberes; e os saberes não se dão sem participarem de relações de poder, sem se constituírem em jogos de força. Visualizando assim, o discurso como prática em movimento, podemos pensar a produção cultural como algo que definitivamente não está dado, logo pode ser construído.
Toda ação gera impacto e efeito na vida das pessoas, no cotidiano, nas cidades e lugares. Nesse sentido é também política. Veicula modos de vida, visões de mundo, afeta e é afetada. Logo, como ação política, é um espaço de construção de sentido e significado, de criação da realidade.
3. A produção cultural como atividade econômica
Todas as atividades hoje em dia, de alguma maneira, podem ser atividades econômicas. Elas se inserem em um contexto de mercado, geram emprego e renda, participam ativamente da economia global. As atividades culturais, por exemplo, já respondem por 5% do PIB mundial. Os impactos econômicos de uma ação cultural podem contribuir para a revitalização de uma área urbana, para o desenvolvimento local, para o crescimento econômico de um país.
Há exemplos que podemos visualizar, muitos deles internacionais, mas importantes para nos ajudar a pensar o que podemos fazer em nossas realidades locais. Infelizmente as pesquisas em Economia da Cultura no Brasil ainda são muito incipientes, não há análises de impacto. E ainda é preciso entender que não necessariamente desenvolvimento econômico significa desenvolvimento social.
4. A prática da produção cultural
O sistema de produção cultural é composto por quatro fases ou etapas: a produção, a distribuição, a troca e o uso. Cada uma dessas fases necessita de políticas e empreendimentos específicos, caso contrário o sistema se torna falho e o objetivo de um produto ou bem cultural não se realiza.
Veremos o que compõe cada uma das fases e quais as diferenças entre projeto, produto, bem, ação, programa e política cultural, além dos conceitos que permeiam a atividade de produção de cultura, como cultura popular e erudita, cultura de massas, espaço cultural, marketing cultural, indústria cultural, entre outros, e dados do mercado cultural no Brasil.
5. Produção cultural no Brasil
O Ministério da Cultura e as representações regionais [secretarias, departamentos etc] são frutos de uma discussão que se faz desde a década de 20 e que culminou com a implantação do Departamento Nacional de Cultura no primeiro governo de Getúlio Vargas.
Hoje, as políticas do Ministério abarcam uma gama de questões, que passam pela Lei Rouanet, a Economia da Cultura, a Diversidade e a Cultura Digital. Podemos ver ainda a questão cultural dentro dos departamentos de marketing e comunicação das empresas e nas falas dos grupos sociais mais diversos.
A produção cultural apóia-se muito nas políticas governamentais pelo caráter predominante de bem público dos produtos culturais. No Brasil, parte desse apoio se transformou em dependência através de uma política de incentivo fiscal conduzida pelo uso da Lei Rouanet, o que vem sendo a centralidade das discussões na atualidade da produção cultural brasileira.
Bibliografia para aprofundamento
Livros
Benhamou, Françoise. A economia da cultura. São Paulo: Ateliê Editorial, 2007.
Canclini, Nestor Garcia. A globalização imaginada. São Paulo: Iluminuras, 2003.
Canclini, Nestor Garcia. Culturas híbridas. São Paulo: Edusp, 1997.
Coelho, Teixeira. Dicionário Crítico de Políticas Culturais. São Paulo: Iluminuras, 1999.
Foucault, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Edições Loyola, 1996.
Guattari, F. e Rolnik, S. Micropolítica: cartografias do desejo. Petrópolis: Ed. Vozes, 2005.
Hall, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2003.
Oliveira, Lúcia Maciel Barbosa de. Corpos indisciplinados: ação cultural em tempos de biopolítica.
São Paulo: Via Lettera, 2007.
Ortiz, Renato. Mundialização e cultura. São Paulo: Brasiliense, 2000.
Reis, Ana Carla Fonseca. Economia da cultura e desenvolvimento sustentável. São Paulo: Ed.
Manole, 2007.
Reis, Ana Carla Fonseca. Marketing cultural e financiamento da cultura. São Paulo: Ed. Thomson,
2002.
Slack, N., Chambers, S. et al. Administração da produção. São Paulo: Ed. Atlas, 1999.
Sites
Cultura e Mercado: www.culturaemercado.com.br
Ministério da Cultura: www.cultura.gov.br
por Vanessa Rocha
Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense. Professora substituta do curso na área de Planejamento Cultural. Produtora cultural da UFRJ, sócia e gerente de projetos da Mafuá Produções Culturais.
1. Introdução
A produção cultural, assim designada como um saber específico, é uma atividade recente. Embora a produção de atividades culturais exista há muito tempo, a criação de um saber determinado atendeu a realidade que vinha se configurando a partir das discussões sobre cultura no país e no mundo com o crescimento das indústrias culturais a partir da década de 80. O primeiro curso brasileiro de graduação em produção cultural, o curso da UFF, nasceu em 1996 fruto desse contexto, percebendo e antecipando essa realidade que começa a ser construída por artistas, gestores, administradores e os já intitulados produtores culturais. Desde então, estamos acompanhando uma sistematização cada vez maior desse saber através da criação de cursos de produção e gestão cultural e de procedimentos padronizados de construção de projetos e programas culturais.
Para refletirmos a produção cultural como saber é importante destacar que a palavra cultura é também recente, criada no século XIX na Europa, o que aponta para uma necessidade de nomear aquilo que os europeus vinham “descobrindo” pelo mundo mas não conseguiam caracterizar. Ou seja, nasce para dar conta da diferenciação entre aquilo que era o modo de vida europeu e o que era o modo de vida do “selvagem”, do “outro”. O século XX é assim marcado, dentre outras coisas, pelo uso disso que se começou a chamar de cultura, que foi desenvolvido pela antropologia e muito utilizado por governos e empresas de todo mundo. No Brasil a palavra aparece com veemência na fala dos intelectuais do modernismo prosseguindo até a criação de um Ministério de Cultura na década de 80, onde ganha sua legitimidade governamental definitiva e é incorporada de vez a fala dos mais diferentes grupos do país que reivindicam para si políticas culturais específicas.
Félix Guattari, um pensador francês que construiu um pensamento liberto e libertário em andanças pelo mundo, muitas delas pelo Brasil e América Latina, diz que cultura é um conceito reacionário, ou seja, seu uso está sempre atrelado a política e faz parte de um processo de subjetivação. O pensador defende a existência de três culturas: a cultura-valor; a cultura-alma-coletiva; e a cultura-mercadoria. Evidencia, assim, aquilo que Foucault, também pensador francês e um dos mais importantes do século XX, já havia dito: que nenhum conceito existe por si mesmo até que seja configurado na prática. A cultura, nesse sentido, só existe enquanto algo que se pratica, que é ação, e então ela ganha seu significado. Para ele, hoje a cultura estaria no âmbito do mercado, seria a peça participante da sujeição subjetiva do que ele chama de Capitalismo Mundial Integrado, enquanto o capital se responsabilizaria por uma sujeição material. É nesse sentido que fica difícil, por exemplo, reivindicarmos uma cultura e, logo, uma política, pois falar de cultura hoje, para ele, é correr o risco de ser capturado como nicho de mercado, quando não como um gueto para o qual as políticas públicas se voltam mas não conseguem atender devido as próprias limitações do Estado como instituição em crise e como lógica de representação.
Assim, atravessando toda essa discussão, vamos falar de modos de vida. Se há um saber configurado, é possível reconfigurá-lo, usá-lo de acordo com os interesses que nos cabem. Se falar em cultura é um problema, falemos em expressões singulares que merecem espaço em uma realidade que tenta nos mostrar um rosto homogêneo e nos convencer que um padrão de vida e de indivíduo deve se sobrepor. Falemos em diferença e pensemos a produção cultural como um espaço de realização dessas diferenças, um espaço de multiplicidade, este movimento tão caro que falta ao discurso da diversidade tão difundido hoje em dia. Desta forma, abordaremos na aula a produção cultural como ação política, atividade econômica, e como prática, para fecharmos com um entendimento da produção cultural no país por uma perspectiva histórica.
2. A produção cultural como ação política
Nenhuma ação ou prática deixa de ser política, uma vez que são discursos sendo propagados, ordenados, logo, constituindo saberes; e os saberes não se dão sem participarem de relações de poder, sem se constituírem em jogos de força. Visualizando assim, o discurso como prática em movimento, podemos pensar a produção cultural como algo que definitivamente não está dado, logo pode ser construído.
Toda ação gera impacto e efeito na vida das pessoas, no cotidiano, nas cidades e lugares. Nesse sentido é também política. Veicula modos de vida, visões de mundo, afeta e é afetada. Logo, como ação política, é um espaço de construção de sentido e significado, de criação da realidade.
3. A produção cultural como atividade econômica
Todas as atividades hoje em dia, de alguma maneira, podem ser atividades econômicas. Elas se inserem em um contexto de mercado, geram emprego e renda, participam ativamente da economia global. As atividades culturais, por exemplo, já respondem por 5% do PIB mundial. Os impactos econômicos de uma ação cultural podem contribuir para a revitalização de uma área urbana, para o desenvolvimento local, para o crescimento econômico de um país.
Há exemplos que podemos visualizar, muitos deles internacionais, mas importantes para nos ajudar a pensar o que podemos fazer em nossas realidades locais. Infelizmente as pesquisas em Economia da Cultura no Brasil ainda são muito incipientes, não há análises de impacto. E ainda é preciso entender que não necessariamente desenvolvimento econômico significa desenvolvimento social.
4. A prática da produção cultural
O sistema de produção cultural é composto por quatro fases ou etapas: a produção, a distribuição, a troca e o uso. Cada uma dessas fases necessita de políticas e empreendimentos específicos, caso contrário o sistema se torna falho e o objetivo de um produto ou bem cultural não se realiza.
Veremos o que compõe cada uma das fases e quais as diferenças entre projeto, produto, bem, ação, programa e política cultural, além dos conceitos que permeiam a atividade de produção de cultura, como cultura popular e erudita, cultura de massas, espaço cultural, marketing cultural, indústria cultural, entre outros, e dados do mercado cultural no Brasil.
5. Produção cultural no Brasil
O Ministério da Cultura e as representações regionais [secretarias, departamentos etc] são frutos de uma discussão que se faz desde a década de 20 e que culminou com a implantação do Departamento Nacional de Cultura no primeiro governo de Getúlio Vargas.
Hoje, as políticas do Ministério abarcam uma gama de questões, que passam pela Lei Rouanet, a Economia da Cultura, a Diversidade e a Cultura Digital. Podemos ver ainda a questão cultural dentro dos departamentos de marketing e comunicação das empresas e nas falas dos grupos sociais mais diversos.
A produção cultural apóia-se muito nas políticas governamentais pelo caráter predominante de bem público dos produtos culturais. No Brasil, parte desse apoio se transformou em dependência através de uma política de incentivo fiscal conduzida pelo uso da Lei Rouanet, o que vem sendo a centralidade das discussões na atualidade da produção cultural brasileira.
Bibliografia para aprofundamento
Livros
Benhamou, Françoise. A economia da cultura. São Paulo: Ateliê Editorial, 2007.
Canclini, Nestor Garcia. A globalização imaginada. São Paulo: Iluminuras, 2003.
Canclini, Nestor Garcia. Culturas híbridas. São Paulo: Edusp, 1997.
Coelho, Teixeira. Dicionário Crítico de Políticas Culturais. São Paulo: Iluminuras, 1999.
Foucault, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Edições Loyola, 1996.
Guattari, F. e Rolnik, S. Micropolítica: cartografias do desejo. Petrópolis: Ed. Vozes, 2005.
Hall, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2003.
Oliveira, Lúcia Maciel Barbosa de. Corpos indisciplinados: ação cultural em tempos de biopolítica.
São Paulo: Via Lettera, 2007.
Ortiz, Renato. Mundialização e cultura. São Paulo: Brasiliense, 2000.
Reis, Ana Carla Fonseca. Economia da cultura e desenvolvimento sustentável. São Paulo: Ed.
Manole, 2007.
Reis, Ana Carla Fonseca. Marketing cultural e financiamento da cultura. São Paulo: Ed. Thomson,
2002.
Slack, N., Chambers, S. et al. Administração da produção. São Paulo: Ed. Atlas, 1999.
Sites
Cultura e Mercado: www.culturaemercado.com.br
Ministério da Cultura: www.cultura.gov.br
25/05/2009
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Olá pessoal!
Excepcionalmente, a aula do dia 28 será na sala 214 do bloco N. Teremos aula sobre Comunicação Popular com o professor Rafael Oliveira e oficina com a galera da revista Vírus Planetário, que vocês podem ir conhecendo pelo site http://virusplanetario.wordpress.com/.
Um forte abraço,
Adriana.
20/05/2009
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Bumbum Paticumbum Prugurundum (G.R.E.S. IMPÉRIO SERRANO - 1982)
Aluízio Machado
Composição: Aluísio Machado / Beto Sem Braço
Bumbum paticumbum prugurundum
O nosso samba minha gente é isso aí, é isso aí
Bumbum paticumbum prugurundum,
Contagiando a Marquês de Sapucaí (Eu enfeitei )
Enfeitei meu coração (enfeitei meu coração )
De confete e serpentina
Minha mente se fez menina
Num mundo de recordação
Abracei a coroa imperial, fiz meu carnaval,
Extravasando toda a minha emoção
Óh, Praça Onze, tu és imortal
Teus braços embalaram o samba
A sua apoteose é triunfal
De uma barrica se fez uma cuíca
De outra barrica um surdo de marcação
Com reco-reco, pandeiro e tamborim
E lindas baianas o samba ficou assim
Com reco-reco, pandeiro e tamborim
E lindas baianas o samba ficou assim
E passo a passo no compasso o samba cresceu
Na Candelária construiu seu apogeu
As burrinhas, que imagem, para os olhos um prazer
Pedem passagem pros moleques de Debret
As africanas, que quadro original
Iemanjá, Iemanjá, enriquecendo o visual( Vem meu amor)
Vem, meu amor, manda a tristeza embora
É carnaval, a folia, neste dia ninguém chora
Super Escolas de Samba S/ASuper-alegorias
Escondendo gente bamba
Que covardia!
E verás que um filho teu não foge à luta (G.R.E.S. IMPÉRIO SERRANO - 1996
Aluízio Machado
Composição: Aluísio Machado, Lula, Beto Pernada, Arlindo Cruz, Índio do Império
O povo diz amém
É porque tem
Um ser de luz a iluminar
O moderno Dom Quixote
Com mente forte vem nos guiar
Um filho do verde esperança
Não foge à luta, vem lutar
Então verás um dia
O cidadão e a real cidadania
Quero ter a minha terra, ô ô ô
Meu pedacinho de chão, meu quinhão
Isso nunca foi segredo (bis)
Quem é pobre tá com fome
Quem é rico tá com medo
Vou dizer...
Quem tem muito, quer ter mais
Tanto faz se estragar
Joga no lixo, tem bugica pra catar
Senhor, despertai a consciência
É preciso ter igualdade
O ser humano tem que ter dignidade
Morte em vida, triste sina
Pra gente chega de viver a severina
Junte um sorriso meu, um abraço teu
Vamos temperar
Uma porção de fé, sei que vai dar pé
Não vai desandar
Amasse o que é ruim, e massa enfim
Vai se libertar
Sirva um prato cheio de amor
Pro Brasil se alimentar
Eu me embalei, pra te embalar
No balancê, balancear
Vem na folia (vem, vem, vem) (bis)
Chegou a hora de mudar
O meu Império vem cobrar democracia
Eu Quero
Aluízio Machado
Composição: Aluisio Machado, Luiz Carlos do Cavaco e Jorge Nóbrega
Eu quero, a bem da verdade
A felicidade em sua extensão
Encontrar o gênio em sua fonte
E atravessar a ponte
Dessa doce ilusão(Quero, quero, quero sim)
Quero que meu amanhã, meu amanhã
Seja um hoje bem melhor, bem melhor
Uma juventude sã
Com ar puro ao redor (bis)
Quero nosso povo bem nutrido
O país desenvolvido
Quero paz e moradia
Chega de ganhar tão pouco
Chega de sufoco e de covardia
Me dá, me dá
Me dá o que é meu
Foram vinte anos
Que alguém comeu (bis)
Quero me formar bem informado
E meu filho bem letrado
Ser um grande bacharel (bacharel)
Se por acaso alguma dor
Que o doutor seja doutor
E não passe de bedel
Cessou a tempestade
É tempo de bonança
Dona liberdade
Chegou junto com a esperança (vem, meu bem)
Vem meu bem, vem meu bem
Sentir o meu astral, que legalHoje estou cheio de desejo
Quero te cobrir de beijos
Etecetera e tal (bis)
A Humanidade
Velha Guarda do Império Serrano
Composição: Aluísio Machado
A Humanidade
Velha Guarda do Império Serrano
Composição: Aluísio Machado
A humanidade entrou em choque
Ninguém se entende mais
Os homens na face da terra
Não querem paz, só pensam em guerra
Querem alcançar o infinito
Querem conseguir o que não está escrito
O mal suplantou a bondade
A mentira superou a verdade
Quem tem muito quer ter mais
Quem não tem resta sonhar
Quem não estudou é escravo
De quem pôde estudar
Os direitos humanos são iguais
Mas existem as classes sociais
Eu não sou de guerra, sou de paz
Quero trabalhar para poder ter
É tendo que a gente pode dar
Eu quero ser livre e liberar
Eu quero estudar e aprender
Eu só quero aprender para ensinar
Pisa Como Eu Pisei
Composição: Zeca Pagodinho/Beto S/Braço/Aluísio Machado
Composição: Zeca Pagodinho/Beto S/Braço/Aluísio Machado
Chega como eu cheguei
Pisa como eu pisei
No chão que me consagrou
Olha que lei é lei
Lei que eu nunca burlei
Pois Deus me designou
Ao me ver já diz que me conhece
Sem saber bem quem eu sou
Conhece mas desconhece
Meu real interior
Eu só verso e sou reverso
Sou partícula do universo
Sou prazer, também sou dor
Eu sou causa, eu sou efeito
Eu sou torto, eu sou direito
Enfim, eu sou como eu sou
Vem na pureza do vento
Vem na luz que o sol reluz
Sonho que me conduz
Ao choro nos pés da cruz
De tudo que faz a vida
Desmerecer a razão
E meus olhos se confundem
Em ver tanta ingratidão
Chega então...
Se Liga, Doutor
(Beto Sem Braço / Aluizio Machado)
Enfeitaram de arroz e flores becos e vielas
É a festa na favela
A pretinha donzela hoje vai se casar
Pisando sobre pétalas de rosas
Lá vai a pretinha dengosa se encontrar
Com a felicidade no altar
Lá vai ela sob o ecoar do sino da capela (Bis)
Fadada naquele vestido branco
Sob a grinalda, um branco véu
A suntuosidade misturava-se
Com dádivas que Deus manda do céu
Esta cena presenciei no juramento
Que tocou meus sentimentos
Mexeu com meu coração
Minha lágrimas rolaram
E se misturaram com a poeira do chão
Ai, seu doutor
No morro não é só batizado, não, senhor
Lá tem lindos casamentos
Tem o seu convívio social
Mas é preciso que a dona sociedade
Se compenetre da verdade
E não torne o morro assim tão marginal
Lá vai ela...
O Suburbano
(Aluísio Machado ? Beto-sem-braço)
:
Láia Láia!
Láia Láia!
Láia Láia! Láia Láia! Láia Láia! 2X
O SUBURBANO QUE JÁ NASCE POBRETÃO
QUE SE GUIA COM AS PROMESSAS DO PARTIDO DA ILUSÃO 2X(REFRÃO)
E... GENTE BOA SE LEMBRA DE MIM ?
SOU FILHO DO SEU MORGADO DONO DAQULE BUTIQUIM
ONDE TEU PAI BEBIA FIADO VÊ SE TU LEMBRA DE MIM
EU SOU O MORGADO FILHO E JUNTOS FOMOS CRIADOS
VAI DIZER QUE NÃO SE LEMBRA DO FILHO DO SEU MORGADO
VAI DIZER QUE NÃO SE LEMBRA DO FILHO DO SEU MORGADO!
MAS MUDANDO DE CONVERSA
VAMOS AO QUE INTERESSA
NESSE PAPO INFORMAL
NINGUÉM MELHOR QUE VOCÊ POR FAVOR NÃO LEVE A MAL
PARA TRABALHAR COMIGO SER MEU CABO ELEITORAL
É QUE ESTE SEU AMIGO VAI SER DEPUTADO ESTADUAL!
(REFRÃO)...
E QUANDO ELEITO EU FOR VAIS PASSAR A FILÉ MINGON
OS BURACOS DESSA RUA COM ASFALTO VOU TAPAR
lUZ DE CARNIOM NA PRAÇA VOU MANDAR BOTAR
O MORGADO FOI ELEITO E AGORA É EXCELÊNCIA
NÃO SE ENCONTRA O DANADO NEM MARCANDO AUDIÊNCIA
NÃO SE ENCONTRA O DANADO NEM MARCANDO AUDIÊNCIA!
(REFRÃO)
O MORGADO FOI ELEITO E AGORA É EXCELÊNCIA
NÃO SE ENCONTRA O DANADO NEM MARCANDO AUDIÊNCIA
NÃO SE ENCONTRA O DANADO NEM MARCANDO AUDIÊNCIA!
Escasseia
(Aluísio Machado / Zé do Maranhão)
O santo que faz milagre também castiga
O chão que dá flores também dá urtiga
A mulher que ama também odeia
E tudo que dá em abundância escasseia
Escasseia, escasseia, tudo que dá em abundância escasseia
Você me deu uma volta na reviravolta lhe dou volta e meia
A minha grande revolta, quem sempre recolhe não é quem semeia
Escasseia, escasseia, tudo que dá em abundância escasseia
No terreno baldio eu jogo entulho
E no seu desprezo eu jogo meu orgulho
Não se deve subestimar um adversário fraco
Que no jogo de xadrez peão e rei vão pro mesmo buraco
EFEITOS DA EVOLUÇÃO
Até as estações do ano
Já perderam seu valor
Primavera no outono
E faz frio no calor
Tem muito mais
Basta querer raciocinar
Imaginem, minha gente
Explodindo a bomba H
Se o mar recuperasse
Seu verdadeiro lugar
Eu, na minha ignorância
Não consigo ignorar
De que vale a inteligência
Quando a tendência é má
Vejo a dona Ciência
De braços dados com a evolução
Caminhando a passos largos
Para a exterminação
Vejo o Pólo degelar
Sinto a poluição
Vejo a guerra se alastrar
É irmão matando irmão
Se o Cristo aqui voltar
Com intenção de nos salvar
Será preso, algemado
E nem vai poder falar
(Aluísio Machado / Zé do Maranhão)
O santo que faz milagre também castiga
O chão que dá flores também dá urtiga
A mulher que ama também odeia
E tudo que dá em abundância escasseia
Escasseia, escasseia, tudo que dá em abundância escasseia
Você me deu uma volta na reviravolta lhe dou volta e meia
A minha grande revolta, quem sempre recolhe não é quem semeia
Escasseia, escasseia, tudo que dá em abundância escasseia
No terreno baldio eu jogo entulho
E no seu desprezo eu jogo meu orgulho
Não se deve subestimar um adversário fraco
Que no jogo de xadrez peão e rei vão pro mesmo buraco
EFEITOS DA EVOLUÇÃO
Até as estações do ano
Já perderam seu valor
Primavera no outono
E faz frio no calor
Tem muito mais
Basta querer raciocinar
Imaginem, minha gente
Explodindo a bomba H
Se o mar recuperasse
Seu verdadeiro lugar
Eu, na minha ignorância
Não consigo ignorar
De que vale a inteligência
Quando a tendência é má
Vejo a dona Ciência
De braços dados com a evolução
Caminhando a passos largos
Para a exterminação
Vejo o Pólo degelar
Sinto a poluição
Vejo a guerra se alastrar
É irmão matando irmão
Se o Cristo aqui voltar
Com intenção de nos salvar
Será preso, algemado
E nem vai poder falar
19/05/2009
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CULTURA, ECONOMIA E SOCIEDADE NO GOVERNO LULA: UM BREVE COMENTÁRIO CRÍTICO
Samuel Araújo, Laboratório de Etnomusicologia da UFRJ
Samuel Araújo, Laboratório de Etnomusicologia da UFRJ
Procuro neste texto comentar as relações entre cultura, economia e sociedade embutidas em políticas públicas formuladas no âmbito do Ministro da Cultura, como constatado em discursos que propõem haver uma relação intrínseca entre cultura e desenvolvimento, deduzindo daí que o investimento em cultura, no sentido mais monetário da palavra, seria imprescindível ao pleno desenvolvimento econômico e social. Estabelecendo um breve contraponto com um determinado discurso do Sr. ex-Ministro da Cultura Gilberto Gil, procurarei abordar criticamente os seguintes pontos, a meu ver, equivocados da formulação de políticas para a cultura:
1-a redução de processos histórico-econômico-sociais complexos a uma espécie de magia de grandes inovadores artísticos, notadamente aqueles que teriam conseguido “driblar” situações econômico-sociais adversas, daí podendo se chegar à conclusão apressada de que “cultura” contribui para a superação e, em última instância, preenchimento do espaço ocupado pela violência e pela “exclusão”;
2- a limitação do tratamento de temas como “identidade”, “diversidade” e “desenvolvimento” a uma espécie de “tudo-pode”, que se esquiva de tomar partido de determinados movimentos, procedimento talvez compreensível como postura acadêmica, mas de difícil sustentação na área de formulação de políticas;
3- referência constante à equação cultura = desenvolvimento, onde se insinua vaga idéia de um não menos vago desenvolvimento sustentável dependente da chamada indústria cultural, levando a uma questionável expectativa de melhoria de padrão de vida, seja lá qual for o critério, a depender de “mais cultura”;
4- uma idéia de cidadania como algo a que se deve proporcionar acesso, tendo como instrumento “facilitador” o poder público, e desconsiderando o papel de uma práxis que eventualmente possa desestabilizar a própria noção do que seja um “poder público”.
Antes, porém, noto que, no âmbito federal, e por mais que se discorde do Ministério da Cultura (MinC) em seu papel formulador após a instalação do governo Lula, jamais foi tão intensa, no período pós-ditadura militar, a articulação dos setores potencialmente interessados em tais políticas, talvez pela visibilidade igualmente inédita que os temas polêmicos relativos à ação do ministério adquiriram em sua atual gestão.[1] Sua inauguração, por sinal, já obteve ressonância inusitada, muito certamente atribuível ao renome do ministro e a polêmicas anteriores sobre sua hesitação em aceitar o cargo, face à diferença por ele alegada entre o baixo salário de primeiro escalão da república (8 mil reais) e o cachê astronômico de um músico internacionalmente reconhecido, com ampla vantagem para este último. No discurso de posse, a imprensa ressaltou o jeitão acadêmico, em sua auto-proclamada meta de um realizar um do-in (técnica corporal em moda nos anos 60) antropológico no mal-tratado corpo da cultura brasileira, e também sua ênfase em noções como globalização, identidade, pluralidade étnica, miscigenação, economia auto-sustentável etc. Destacava-se ainda, ao olhar dos especialistas, sua oposição ao termo “folclore” em favor do mais antropologicamente correto “cultura” no que tange à produção expressiva de origem popular, não mediada por convenções de escrita ou por processos de produção industrial.
Em pronunciamento realizado em 2004,[2] aqui utilizado como referência mais direta, esses temas são de algum modo retomados, mas o objetivo é acima de tudo referendar a equação cultura = desenvolvimento, adotando-se desde o início um tom aberto aos muitos encontros culturais hoje possíveis, um “quase tudo-pode” aparentemente sem conflitos:
A globalização que produz a hegemonia também acelera as trocas e os encontros, ampliando as contaminações, as miscigenações, as metamorfoses. Que podem ser apropriações. Que podem ser banalizações. Que podem ser reduções ou desqualificações. Mas que muitas vezes são ambiências multiplicadoras, caleidoscópicas, amplificadoras.
Admite-se, assim, inúmeras possibilidades de repercussão da cultura global em culturas locais e vice-versa, evitando radicalizações apressadas anti-globalização, o que pode ser um sinal simpático para o público em geral, mas dificilmente dará instrumentos ao formulador de políticas para se posicionar como tal diante de situações vividas por indivíduos concretos em situações de pressão. Em pesquisa realizada por nós com uma equipe mista de moradores da Maré e pesquisadores universitários, por exemplo, observa-se naquela localidade, de fato, reapropriações criativas da cultura global, que abrem caminho a questionamentos instigantes sobre a experiência local em toda sua complexidade. No entanto, isso não exclui a face cruel da assim chamada globalização, que também se encontra presente no mesmo local, como atesta o registro de inúmeros exemplos de banalização da experiência cultural via consumismo que não leva a saídas, de redução da experiência cultural ou estética dos moradores da Maré ao “acesso” aos “monumentos artísticos” determinados por critérios de qualidade externos e inacessíveis à população local, sem que essa seja esclarecida de modo a poder concordar ou não com a validade desses “monumentos”, ou ainda a sistemática desqualificação da experiência dos “excluídos”, como “carência” que deve ser suprida pelo conteúdo supostamente “transformador” que vem “de fora”, não raro com apoio do poder público.
Essa mesma postura política desloca a definição de desenvolvimento para o âmbito das diversas culturas, procurando aí possibilitar, a meu ver acertadamente, que a formulação de políticas compreenda o diálogo com a grande variedade de interesses sociais em questão:
Quando se fala em cultura e desenvolvimento, portanto, o pressuposto mais importante é o de que o próprio desenvolvimento é um conceito que se forma dentro de determinado ambiente cultural, e que se modifica ao longo do tempo, sendo, portanto, necessariamente cultural.
Em seguida, porém, o discurso do ex-ministro volta a uma certa ambigüidade, certamente perigosa no que se refere à condução de políticas públicas em país ainda tão marcado por profundas desigualdades, deixando transparecer uma certa omissão do Estado em estabelecer quaisquer parâmetros de arbítrio e decisão sobre os conflitos que inevitavelmente surgirão diante das correlações de forças expressas em ações culturais concretas:
... as identidades culturais existem no diálogo com as demais, e dependem deste diálogo para sobreviver. Significa o reconhecimento de que a promoção da identidade e da diversidade cultural e do convívio tolerante entre sociedades, grupos sociais e indivíduos é vital para a democracia e está entre os deveres básicos dos governos.
É imperativo lembrar, no entanto, que boa parte dessa reconhecida diversidade se deve à existência no Brasil de verdadeiros abismos sociais e econômicos, permeados por desigualdades e hierarquias raciais e regionais (e muitas outras) historicamente arraigadas, cujo rompimento dificilmente se dará sem ações mais políticas incisivas e de certo nível de confronto. Confronto esse, que fique bem claro, que não deve implicar necessariamente violência de tipo institucional ou outra qualquer, mas um diálogo radical baseado em verdadeiro conhecimento, como diria um Paulo Freire, um conhecimento demolidor de mitos de superioridade natural que camuflam relações de dominação e subordinação baseadas única e exclusivamente na força física latente ou manifesta.
O tópico seguinte no discurso de Gil ilustra, porém, e de modo exemplar, um ponto-chave das políticas em curso:
...o crescimento econômico e o comércio global devem ser culturalmente justos e sustentáveis. As Indústrias Criativas representam hoje, não apenas para o Brasil, mas para muitos países em desenvolvimento, o coração de suas chances de sucesso na globalização.
Quanto mais a produção e a comercialização de bens e serviços estiver imbuída da cultura local, maior será o seu valor, a sua abrangência, inclusive global, e o seu impacto transformador. E maior será também a sua vantagem comparativa. Trata-se do “glocal”.
Neste ponto, anuncia-se a real meta a se alcançar, bem de acordo com os ventos simultaneamente sombrios e alvissareiros, detectados por certos analistas econômicos, de uma superação do mundo do trabalho tal qual ele foi conhecido pelo menos desde a segunda revolução industrial, rumo ao mundo do conhecimento, onde obterá autonomia aquele que detiver a propriedade de softwares (em outras palavras, de conhecimento original que possa ser patenteado), por assim dizer, originais e vendáveis em escala global, através da “livre” (mais aspas seriam necessárias aqui) competição entre as assim denominadas “indústrias criativas”. Assume-se, portanto, a perspectiva de um mercado global da diferença, em que a propriedade sobre produtos exóticos e universalmente desejáveis seria a principal forma circulante de capital. O passo seguinte nesse tipo de argumento, como não poderia deixar de ser, é destacar o investimento do poder público necessário à consolidação de tal política:
A cultura, como o meio ambiente, já foi encarada como um custo ao desenvolvimento. Vista de outra maneira, torna-se um manancial de recursos positivos. Trata-se do que o próprio Banco Mundial denominou “win-win”, ou seja, “oportunidades duplamente vencedoras”. A produção de um conhecimento abrangente, complexo, capaz de lidar com a multiplicidade, a fragmentação e as incongruências do real, pode ser a chave para o duplo “win”, na gestação de um projeto democrático e plural de nação, que incorpore tanto o planejamento tradicional quanto a gestão das demandas, o imponderável, as surpresas, aquilo que Cartola chamaria de “as voltas que a vida dá”, muitas vezes intangíveis e implanejáveis, mas inexoráveis.
É no mínimo irônico procurar apoiar tal “argumento” em Cartola, grande compositor mangueirense que tão bem conheceu outro tipo, alheio, de win-win, aquele em que, graças ao peso de injustiças históricas como o racismo e a desigualdade econômica, tanto a interpretação cantada quanto a propriedade de alguns de seus sambas passaram para o controle de cantores brancos de classe média, que gravaram e compraram a autoria de suas músicas. Mas talvez ainda mais perigoso seja o eventual poder de sedução da associação entre cultura e ecologia[3], a primeira vista como mais um exemplo de recurso econômico de fonte “limpa”, não predatória, cuja falácia não merece maior detalhamento nesta breve discussão. As associações apressadas com outras áreas seguem, no entanto, pontuando o texto em questão, quando uma reflexão mais profunda, talvez de caráter comparativo, poderia ser bastante produtiva:
O recente Relatório de Desenvolvimento Humano – 2004 da ONU destaca o papel estratégico da cultura na atuação dos governos. Também incorpora o acesso à cultura como indicador para avaliar a qualidade de vida e o desenvolvimento. O IDH, a partir de agora, põe a cultura ao lado da educação, da saúde e de outras questões vitais.
Tomando o caso da saúde como exemplo, a noção de cultura como valor em mercado, que engloba o que se denomina indústrias criativas, parece se remeter a uma concepção de saúde mais próxima da associação de senso comum entre saúde e medicalização, com ênfase, no caso da área de saúde, a hospitais e centros médicos de alta especialização e alta competência, bem como investimentos de grande porte, principalmente em tecnologia “de ponta”. Tudo isso em detrimento de iniciativas de promoção da saúde reivindicadas pelos movimentos sociais em prol da defesa e promoção da saúde pública, certamente não tão dependentes de uma organização de tipo capitalista, de tecnologias “avançadas” ou de investimentos vultosos, mas respaldadas na mobilização da sociedade.
Próximo à conclusão do texto aqui examinado, pronuncia-se de modo mais claro as metas desejadas:
E não se trata exatamente da diversidade cultural ou da intensidade da produção cultural, do talento dos artistas, dos gestores, mas do grau de acesso da população à produção e à fruição da diversidade e da intensidade. É aí que entram as políticas públicas. É aí que a cultura se torna um dos direitos fundamentais do homem. É aí que os governos têm um papel que o mercado não substitui, até porque se trata de ajudar a desenvolver o próprio mercado cultural.
O investimento nesta área é um investimento no desenvolvimento do país, com impactos objetivos e subjetivos sobre a vitalidade da economia e da sociedade brasileira. Cultura gera auto-estima e renda. Cultura faz um país. E um povo.
Destaca-se, portanto, a noção de cultura como instrumento reafirmando o caráter supostamente positivo de valores e relações sociais já consagradas em meio a profundas desigualdades, sem que se faça a crítica das formas absurdas de perversão social, política e econômica que estão por trás desses mesmos valores e relações sociais. Esse quadro nos parece pouco consistente como modelo de um governo que aglutinou por um momento a esperança popular de mudança no país, ainda que admitamos—e o fazemos, sem pretender a abolir—a existência da indústria cultural como um dado do mundo contemporâneo, que comporta interesses a serem considerados na formulação de políticas públicas, exigindo que existam ações de mediação entre interesses contraditórios no âmbito do MinC.[4]
Ainda que de modo incipiente, a já mencionada experiência de pesquisa desenvolvida pelo Laboratório de Etnomusicologiada UFRJ em colaboração com o Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré, ONG findada por residentes daquela região do Rio de Janeiro, aponta em direção distinta. Apoiada na perspectiva dialógica aberta por Paulo Freire, ela tem como eixo que os próprios residentes identifiquem os temas relevantes a serem pesquisados, documentem, reflitam e debatam entre si e com sua comunidade as formas de produção e circulação da música, como estratégia de mobilização das populações marginalizadas da vida social, política e econômica brasileira. Instaurando no próprio espaço comunitário um centro de produção de conhecimento gerido pelos moradores, tendo à disposição uma equipe acadêmica como colaboradora, uma bibliografia pertinente às áreas de pesquisa definidas pelos moradores e alguns recursos tecnológicos “não tão de ponta”, desenvolvem-se atividades como discussões sistemáticas, algumas programadas, outras não-programadas, leitura e discussão de textos, exercícios de escrita etnográfica, dramatizações, debates sobre registros variados da vida social, exercícios iniciais de documentação, participações em fóruns internos e externos de debate; formação em geração e edição de documentários sonoros e audiovisuais.
Em conclusão, arriscaria dizer que, sem exigir investimentos tão altos nem desprezar a indústria cultural, mas tomando o que aqui foi discutido como questões abertas, evitando sua transformação em tema sem discussão, tal direcionamento pode apresentar, contribuições potenciais a políticas públicas, com ângulos de abordagem inovadores e socialmente mais comprometidos aos debates sobre patrimônio cultural, cidadania, protagonismo, educação, redistribuição de renda e, por fim, sobre o próprio papel do mundo acadêmico em processos de mudança social.
[1] Refiro-me aqui principalmente à repercussão de uma idéia debatida em âmbito nacional, e por algum tempo nas primeiras páginas da chamada grande imprensa, de cláusula exigindo a explicitação de “contrapartidas de cunho social” em editais federais de financiamento à produção cultural, aliada à centralização da gestão de todos os programas federais de incentivo à cultura, inclusive o grande filão de patrocínios das empresas estatais, no Ministério das Comunicações. A reação maior veio de alguns setores da área cinematográfica, com apoio óbvio de vencedores contumazes de editais de patrocínio público, acusando os gestores identificados com tal proposta de patrocinadores do totalitarismo cultural. O próprio ministro, pressionado, colocou-se como descompromissado com a referida proposta, que acabou saindo inteiramente de pauta.
[2]Ministro da Cultura, Gilberto Gil, na Faculdade de Economia da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP). 26/10/2004. (Disponível em http://www.cultura.gov.br/noticias/discursos/index.php?p=871&more=
1&c=1&pb=1; Último acesso: 08/10/2005)
[3] O investimento em projetos ecológicos teria estaria na origem do termo econômico win-win, já que nele supostamente ganham os investidores e o meio ambiente.
[4] Refiro-me, mais especificamente, à implantação das Câmaras Setoriais de Música e das Culturas Populares.
1&c=1&pb=1; Último acesso: 08/10/2005)
[3] O investimento em projetos ecológicos teria estaria na origem do termo econômico win-win, já que nele supostamente ganham os investidores e o meio ambiente.
[4] Refiro-me, mais especificamente, à implantação das Câmaras Setoriais de Música e das Culturas Populares.
15/05/2009
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A ESCRAVIDÃO levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras
instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um
deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-deflandres.
A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a
boca. Tinha só três buracos, dous para ver, um para respirar, e era fechada atrás da
cabeça por um cadeado. Com o vício de beber. perdiam a tentação de furtar, porque
geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí
ficavam dous pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal
máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma
vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não
cuidemos de máscaras.
instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um
deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-deflandres.
A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a
boca. Tinha só três buracos, dous para ver, um para respirar, e era fechada atrás da
cabeça por um cadeado. Com o vício de beber. perdiam a tentação de furtar, porque
geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí
ficavam dous pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal
máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma
vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não
cuidemos de máscaras.
O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a
haste grossa também à direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atrás com
chave. Pesava, naturalmente, mas era menos castigo que sinal. Escravo que fugia assim,
onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pegado.
Há meio século, os escravos fugiam com freqüência. Eram muitos, e nem todos
gostavam da escravidão. Sucedia ocasionalmente apanharem pancada, e nem todos
gostavam de apanhar pancada. Grande parte era apenas repreendida; havia alguém de
casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da
propriedade moderava a ação, porque dinheiro também dói. A fuga repetia-se,
entretanto. Casos houve, ainda que raros, em que o escravo de contrabando, apenas
comprado no Valongo, deitava a correr, sem conhecer as ruas da cidade. Dos que
seguiam para casa, não raro, apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcasse
aluguel, e iam ganhá-lo fora, quitandando.
Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lho levasse. Punha
anúncios nas folhas públicas, com os sinais do fugido, o nome, a roupa, o defeito físico,
se o tinha, o bairro por onde andava e a quantia de gratificação. Quando não vinha a
quantia, vinha promessa: "gratificar-se-á generosamente", -- ou "receberá uma boa
gratificação". Muita vez o anúncio trazia em cima ou ao lado uma vinheta, figura de
preto, descalço, correndo, vara ao ombro, e na ponta uma trouxa. Protestava-se com
todo o rigor da lei contra quem o acoutasse.
Ora, pegar escravos fugidios era um ofício do tempo. Não seria nobre, mas por ser
instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza
implícita das ações reivindicadoras. Ninguém se metia em tal ofício por desfastio ou
estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros trabalhos, o
acaso, e alguma vez o gosto de servir também, ainda que por outra via, davam o
impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem à desordem.
Cândido Neves, -- em família, Candinho,-- é a pessoa a quem se liga a história de uma
fuga, cedeu à pobreza, quando adquiriu o ofício de pegar escravos fugidos. Tinha um
defeito grave esse homem, não agüentava emprego nem ofício, carecia de estabilidade;
é o que ele chamava caiporismo. Começou por querer aprender tipografia, mas viu cedo
que era preciso algum tempo para compor bem, e ainda assim talvez não ganhasse o
bastante; foi o que ele disse a si mesmo. O comércio chamou-lhe a atenção, era carreira
boa. Com algum esforço entrou de caixeiro para um armarinho. A obrigação, porém, de
atender e servir a todos feria-o na corda do orgulho, e ao cabo de cinco ou seis semanas
estava na rua por sua vontade. Fiel de cartório, contínuo de uma repartição anexa ao
Ministério do Império, carteiro e outros empregos foram deixados pouco depois de
obtidos.
Quando veio a paixão da moça Clara, não tinha ele mais que dívidas, ainda que poucas,
porque morava com um primo, entalhador de ofício. Depois de várias tentativas para
obter emprego, resolveu adotar o ofício do primo, de que aliás já tomara algumas lições.
Não lhe custou apanhar outras, mas, querendo aprender depressa, aprendeu mal. Não
fazia obras finas nem complicadas, apenas garras para sofás e relevos comuns para
cadeiras. Queria ter em que trabalhar quando casasse, e o casamento não se demorou
muito.
Contava trinta anos. Clara vinte e dous. Ela era órfã, morava com uma tia, Mônica, e
cosia com ela. Não cosia tanto que não namorasse o seu pouco, mas os namorados
apenas queriam matar o tempo; não tinham outro empenho. Passavam às tardes,
olhavam muito para ela, ela para eles, até que a noite a fazia recolher para a costura. O
que ela notava é que nenhum deles lhe deixava saudades nem lhe acendia desejos.
Talvez nem soubesse o nome de muitos. Queria casar, naturalmente. Era, como lhe dizia
a tia, um pescar de caniço, a ver se o peixe pegava, mas o peixe passava de longe;
algum que parasse, era só para andar à roda da isca, mirá-la, cheirá-la, deixá-la e ir a
outras.
O amor traz sobrescritos. Quando a moça viu Cândido Neves, sentiu que era este o
possível marido, o marido verdadeiro e único. O encontro deu-se em um baile; tal foi--
para lembrar o primeiro ofício do namorado, -- tal foi a página inicial daquele livro, que
tinha de sair mal composto e pior brochado. O casamento fez-se onze meses depois, e
foi a mais bela festa das relações dos noivos. Amigas de Clara, menos por amizade que
por inveja, tentaram arredá-la do passo que ia dar. Não negavam a gentileza do noivo,
nem o amor que lhe tinha, nem ainda algumas virtudes; diziam que era dado em
demasia a patuscadas.
--Pois ainda bem, replicava a noiva; ao menos, não caso com defunto. --Não, defunto
não; mas é que...
Não diziam o que era. Tia Mônica, depois do casamento, na casa pobre onde eles se
foram abrigar, falou-lhes uma vez nos filhos possíveis. Eles queriam um, um só, embora
viesse agravar a necessidade.
--Vocês, se tiverem um filho, morrem de fome, disse a tia à sobrinha.
--Nossa Senhora nos dará de comer, acudiu Clara. Tia Mônica devia ter-lhes feito a
advertência, ou ameaça, quando ele lhe foi pedir a mão da moça; mas também ela era
amiga de patuscadas, e o casamento seria uma festa, como foi.
A alegria era comum aos três. O casal ria a propósito de tudo. Os mesmos nomes eram
objeto de trocados, Clara, Neves, Cândido; não davam que comer, mas davam que rir, e
o riso digeria-se sem esforço.
Ela cosia agora mais, ele saía a empreitadas de uma cousa e outra; não tinha emprego
certo.
Nem por isso abriam mão do filho. O filho é que, não sabendo daquele desejo
específico, deixava-se estar escondido na eternidade. Um dia. porém, deu sinal de si a
criança; varão ou fêmea, era o fruto abençoado que viria trazer ao casal a suspirada
ventura. Tia Mônica ficou desorientada, Cândido e Clara riram dos seus sustos.
--Deus nos há de ajudar, titia, insistia a futura mãe.
A notícia correu de vizinha a vizinha. Não houve mais que espreitar a aurora do dia
grande. A esposa trabalhava agora com mais vontade, e assim era preciso, uma vez que,
além das costuras pagas, tinha de ir fazendo com retalhos o enxoval da criança. À força
de pensar nela, vivia já com ela, media-lhe fraldas, cosia-lhe camisas. A porção era
escassa, os intervalos longos. Tia Mônica ajudava, é certo, ainda que de má vontade.
--Vocês verão a triste vida, suspirava ela. --Mas as outras crianças não nascem também?
perguntou Clara. --Nascem, e acham sempre alguma cousa certa que comer, ainda que
pouco... --Certa como? --Certa, um emprego, um ofício, uma ocupação, mas em que é
que o pai dessa infeliz criatura que aí vem gasta o tempo?
Cândido Neves, logo que soube daquela advertência, foi ter com a tia, não áspero mas
muito menos manso que de costume, e lhe perguntou se já algum dia deixara de comer.
--A senhora ainda não jejuou senão pela semana santa, e isso mesmo quando não quer
jantar comigo. Nunca deixamos de ter o nosso bacalhau... --Bem sei, mas somos três. --
Seremos quatro. --Não é a mesma cousa. -- Que quer então que eu faça, além do que
faço? -- Alguma cousa mais certa. Veja o marceneiro da esquina, o homem do
armarinho, o tipógrafo que casou sábado, todos têm um emprego certo... Não fique
zangado; não digo que você seja vadio, mas a ocupação que escolheu é vaga. Você
passa semanas sem vintém. -- Sim, mas lá vem uma noite que compensa tudo, até de
sobra. Deus não me abandona, e preto fugido sabe que comigo não brinca; quase
nenhum resiste, muitos entregam-se logo.
Tinha glória nisto, falava da esperança como de capital seguro. Daí a pouco ria, e fazia
rir à tia, que era naturalmente alegre, e previa uma patuscada no batizado.
Cândido Neves perdera já o ofício de entalhador, como abrira mão de outros muitos,
melhores ou piores. Pegar escravos fugidos trouxe-lhe um encanto novo. Não obrigava a
estar longas horas sentado. Só exigia força, olho vivo, paciência, coragem e um pedaço
de corda. Cândido Neves lia os anúncios, copiava-os, metia-os no bolso e saía às
pesquisas. Tinha boa memória. Fixados os sinais e os costumes de um escravo fugido,
gastava pouco tempo em achá-lo, segurá-lo, amarrá-lo e levá-lo. A força era muita, a
agilidade também. Mais de uma vez, a uma esquina, conversando de cousas remotas,
via passar um escravo como os outros, e descobria logo que ia fugido, quem era, o
nome, o dono, a casa deste e a gratificação; interrompia a conversa e ia atrás do vicioso.
Não o apanhava logo, espreitava lugar azado, e de um salto tinha a gratificação nas
mãos. Nem sempre saía sem sangue, as unhas e os dentes do outro trabalhavam, mas
geralmente ele os vencia sem o menor arranhão.
Um dia os lucros entraram a escassear. Os escravos fugidos não vinham já, como
dantes, meter-se nas mãos de Cândido Neves. Havia mãos novas e hábeis. Como o
negócio crescesse, mais de um desempregado pegou em si e numa corda, foi aos jornais,
copiou anúncios e deitou-se à caçada. No próprio bairro havia mais de um competidor.
Quer dizer que as dívidas de Cândido Neves começaram de subir, sem aqueles
pagamentos prontos ou quase prontos dos primeiros tempos. A vida fez-se difícil e dura.
Comia-se fiado e mal; comia-se tarde. O senhorio mandava pelo aluguéis.
Clara não tinha sequer tempo de remendar a roupa ao marido, tanta era a necessidade de
coser para fora. Tia Mônica ajudava a sobrinha, naturalmente. Quando ele chegava à
tarde, via-se-lhe pela cara que não trazia vintém. Jantava e saía outra vez, à cata de
algum fugido. Já lhe sucedia, ainda que raro, enganar-se de pessoa, e pegar em escravo
fiel que ia a serviço de seu senhor; tal era a cegueira da necessidade. Certa vez capturou
um preto livre; desfez-se em desculpas, mas recebeu grande soma de murros que lhe
deram os parentes do homem.
--É o que lhe faltava! exclamou a tia Mônica, ao vê-lo entrar, e depois de ouvir narrar o
equívoco e suas conseqüências. Deixe-se disso, Candinho; procure outra vida, outro
emprego.
Cândido quisera efetivamente fazer outra cousa, não pela razão do conselho, mas por
simples gosto de trocar de ofício; seria um modo de mudar de pele ou de pessoa. O pior
é que não achava à mão negócio que aprendesse depressa.
A natureza ia andando, o feto crescia, até fazer-se pesado à mãe, antes de nascer.
Chegou o oitavo mês, mês de angústias e necessidades, menos ainda que o nono, cuja
narração dispenso também. Melhor é dizer somente os seus efeitos. Não podiam ser
mais amargos.
--Não, tia Mônica! bradou Candinho, recusando um conselho que me custa escrever,
quanto mais ao pai ouvi-lo. Isso nunca!
Foi na última semana do derradeiro mês que a tia Mônica deu ao casal o conselho de
levar a criança que nascesse à Roda dos enjeitados. Em verdade, não podia haver
palavra mais dura de tolerar a dous jovens pais que espreitavam a criança, para beijá-la,
guardá-la, vê-la rir, crescer, engordar, pular... Enjeitar quê? enjeitar como? Candinho
arregalou os olhos para a tia, e acabou dando um murro na mesa de jantar. A mesa, que
era velha e desconjuntada, esteve quase a se desfazer inteiramente. Clara interveio. --
Titia não fala por mal, Candinho. --Por mal? replicou tia Mônica. Por mal ou por bem,
seja o que for, digo que é o melhor que vocês podem fazer. Vocês devem tudo; a carne e
o feijão vão faltando. Se não aparecer algum dinheiro, como é que a família há de
aumentar? E depois, há tempo; mais tarde, quando o senhor tiver a vida mais segura, os
filhos que vierem serão recebidos com o mesmo cuidado que este ou maior. Este será
bem criado, sem lhe faltar nada. Pois então a Roda é alguma praia ou monturo? Lá não
se mata ninguém, ninguém morre à toa, enquanto que aqui é certo morrer, se viver à
míngua. Enfim...
Tia Mônica terminou a frase com um gesto de ombros, deu as costas e foi meter-se na
alcova. Tinha já insinuado aquela solução, mas era a primeira vez que o fazia com tal
franqueza e calor,-- crueldade, se preferes. Clara estendeu a mão ao marido, como a
amparar-lhe o ânimo; Cândido Neves fez uma careta, e chamou maluca à tia, em voz
baixa. A ternura dos dous foi interrompida por alguém que batia à porta da rua.
--Quem é? perguntou o marido. --Sou eu.
Era o dono da casa, credor de três meses de aluguel, que vinha em pessoa ameaçar o
inquilino. Este quis que ele entrasse.
--Não é preciso... --Faça favor.
O credor entrou e recusou sentar-se, deitou os olhos à mobília para ver se daria algo à
penhora; achou que pouco. Vinha receber os aluguéis vencidos, não podia esperar mais;
se dentro de cinco dias não fosse pago, pô-lo-ia na rua. Não havia trabalhado para
regalo dos outros. Ao vê-lo, ninguém diria que era proprietário; mas a palavra supria o
que faltava ao gesto, e o pobre Cândido Neves preferiu calar a retorquir. Fez uma
inclinação de promessa e súplica ao mesmo tempo. O dono da casa não cedeu mais.
--Cinco dias ou rua! repetiu, metendo a mão no ferrolho da porta e saindo.
Candinho saiu por outro lado. Nesses lances não chegava nunca ao desespero, contava
com algum empréstimo, não sabia como nem onde, mas contava. Demais, recorreu aos
anúncios. Achou vários, alguns já velhos, mas em vão os buscava desde muito. Gastou
algumas horas sem proveito, e tornou para casa. Ao fim de quatro dias, não achou
recursos; lançou mão de empenhos, foi a pessoas amigas do proprietário, não
alcançando mais que a ordem de mudança.
A situação era aguda. Não achavam casa, nem contavam com pessoa que lhes
emprestasse alguma; era ir para a rua. Não contavam com a tia. Tia Mônica teve arte de
alcançar aposento para os três em casa de uma senhora velha e rica, que lhe prometeu
emprestar os quartos baixos da casa, ao fundo da cocheira, para os lados de um pátio.
Teve ainda a arte maior de não dizer nada aos dous, para que Cândido Neves, no
desespero da crise começasse por enjeitar o filho e acabasse alcançando algum meio
seguro e regular de obter dinheiro; emendar a vida, em suma. Ouvia as queixas de Clara,
sem as repetir, é certo, mas sem as consolar. No dia em que fossem obrigados a deixar a
casa, fá-los-ia espantar com a notícia do obséquio e iriam dormir melhor do que
cuidassem.
Assim sucedeu. Postos fora da casa, passaram ao aposento de favor, e dous dias depois
nasceu a criança. A alegria do pai foi enorme, e a tristeza também. Tia Mônica insistiu
em dar a criança à Roda. "Se você não a quer levar, deixe isso comigo; eu vou à Rua
dos Barbonos." Cândido Neves pediu que não, que esperasse, que ele mesmo a levaria.
Notai que era um menino, e que ambos os pais desejavam justamente este sexo. Mal lhe
deram algum leite; mas, como chovesse à noite, assentou o pai levá-lo à Roda na noite
seguinte.
Naquela reviu todas as suas notas de escravos fugidos . As gratificações pela maior
parte eram promessas; algumas traziam a soma escrita e escassa. Uma, porém, subia a
cem mil-réis. Tratava-se de uma mulata; vinham indicações de gesto e de vestido.
Cândido Neves andara a pesquisá-la sem melhor fortuna, e abrira mão do negócio;
imaginou que algum amante da escrava a houvesse recolhido. Agora, porém, a vista
nova da quantia e a necessidade dela animaram Cândido Neves a fazer um grande
esforço derradeiro. Saiu de manhã a ver e indagar pela Rua e Largo da Carioca, Rua do
Parto e da Ajuda, onde ela parecia andar, segundo o anúncio. Não a achou; apenas um
farmacêutico da Rua da Ajuda se lembrava de ter vendido uma onça de qualquer droga,
três dias antes, à pessoa que tinha os sinais indicados. Cândido Neves parecia falar
como dono da escrava, e agradeceu cortesmente a notícia. Não foi mais feliz com outros
fugidos de gratificação incerta ou barata.
Voltou para a triste casa que lhe haviam emprestado. Tia Mônica arranjara de si mesma
a dieta para a recente mãe, e tinha já o menino para ser levado à Roda. O pai, não
obstante o acordo feito, mal pôde esconder a dor do espetáculo. Não quis comer o que
tia Mônica lhe guardara; não tinha fome, disse, e era verdade. Cogitou mil modos de
ficar com o filho; nenhum prestava. Não podia esquecer o próprio albergue em que
vivia. Consultou a mulher, que se mostrou resignada. Tia Mônica pintara-lhe a criação
do menino; seria maior a miséria, podendo suceder que o filho achasse a morte sem
recurso. Cândido Neves foi obrigado a cumprir a promessa; pediu à mulher que desse ao
filho o resto do leite que ele beberia da mãe. Assim se fez; o pequeno adormeceu, o pai
pegou dele, e saiu na direção da Rua dos Barbonos.
Que pensasse mais de uma vez em voltar para casa com ele, é certo; não menos certo é
que o agasalhava muito, que o beijava, que cobria o rosto para preservá-lo do sereno.
Ao entrar na Rua da Guarda Velha, Cândido Neves começou a afrouxar o passo. --Hei
de entregá-lo o mais tarde que puder, murmurou ele. Mas não sendo a rua infinita ou
sequer longa, viria a acabá-la; foi então que lhe ocorreu entrar por um dos becos que
ligavam aquela à Rua da Ajuda. Chegou ao fim do beco e, indo a dobrar à direita, na
direção do Largo da Ajuda, viu do lado oposto um vulto de mulher; era a mulata fugida.
Não dou aqui a comoção de Cândido Neves por não podê-lo fazer com a intensidade
real. Um adjetivo basta; digamos enorme. Descendo a mulher, desceu ele também; a
poucos passos estava a farmácia onde obtivera a informação, que referi acima. Entrou,
achou o farmacêutico, pediu-lhe a fineza de guardar a criança por um instante; viria
buscá-la sem falta.
--Mas...
Cândido Neves não lhe deu tempo de dizer nada; saiu rápido, atravessou a rua, até ao
ponto em que pudesse pegar a mulher sem dar alarma. No extremo da rua, quando ela ia
a descer a de S. José, Cândido Neves aproximou-se dela. Era a mesma, era a mulata
fujona. --Arminda! bradou, conforme a nomeava o anúncio.
Arminda voltou-se sem cuidar malícia. Foi só quando ele, tendo tirado o pedaço de
corda da algibeira, pegou dos braços da escrava, que ela compreendeu e quis fugir. Era
já impossível. Cândido Neves, com as mãos robustas, atava-lhe os pulsos e dizia que
andasse. A escrava quis gritar, parece que chegou a soltar alguma voz mais alta que de
costume, mas entendeu logo que ninguém viria libertá-la, ao contrário. Pediu então que
a soltasse pelo amor de Deus.
--Estou grávida, meu senhor! exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum filho, peço-lhe
por amor dele que me solte; eu serei tua escrava, vou servi-lo pelo tempo que quiser. Me
solte, meu senhor moço! -- Siga! repetiu Cândido Neves. --Me solte! --Não quero
demoras; siga!
Houve aqui luta, porque a escrava, gemendo, arrastava-se a si e ao filho. Quem passava
ou estava à porta de uma loja, compreendia o que era e naturalmente não acudia.
Arminda ia alegando que o senhor era muito mau, e provavelmente a castigaria com
açoutes,--cousa que, no estado em que ela estava, seria pior de sentir. Com certeza, ele
lhe mandaria dar açoutes.
--Você é que tem culpa. Quem lhe manda fazer filhos e fugir depois? perguntou
Cândido Neves.
Não estava em maré de riso, por causa do filho que lá ficara na farmácia, à espera dele.
Também é certo que não costumava dizer grandes cousas. Foi arrastando a escrava pela
Rua dos Ourives, em direção à da Alfândega, onde residia o senhor. Na esquina desta a
luta cresceu; a escrava pôs os pés à parede, recuou com grande esforço, inutilmente. O
que alcançou foi, apesar de ser a casa próxima, gastar mais tempo em lá chegar do que
devera. Chegou, enfim, arrastada, desesperada, arquejando. Ainda ali ajoelhou-se, mas
em vão. O senhor estava em casa, acudiu ao chamado e ao rumor.
--Aqui está a fujona, disse Cândido Neves. -- É ela mesma. --Meu senhor! --Anda,
entra...
Arminda caiu no corredor. Ali mesmo o senhor da escrava abriu a carteira e tirou os
cem mil-réis de gratificação. Cândido Neves guardou as duas notas de cinqüenta milréis,
enquanto o senhor novamente dizia à escrava que entrasse. No chão, onde jazia,
levada do medo e da dor, e após algum tempo de luta a escrava abortou.
O fruto de algum tempo entrou sem vida neste mundo, entre os gemidos da mãe e os
gestos de desespero do dono. Cândido Neves viu todo esse espetáculo. Não sabia que
horas eram. Quaisquer que fossem, urgia correr à Rua da Ajuda, e foi o que ele fez sem
querer conhecer as conseqüências do desastre.
Quando lá chegou, viu o farmacêutico sozinho, sem o filho que lhe entregara. Quis
esganá-lo. Felizmente, o farmacêutico explicou tudo a tempo; o menino estava lá dentro
com a família, e ambos entraram. O pai recebeu o filho com a mesma fúria com que
pegara a escrava fujona de há pouco, fúria diversa, naturalmente, fúria de amor.
Agradeceu depressa e mal, e saiu às carreiras, não para a Roda dos enjeitados, mas para
a casa de empréstimo com o filho e os cem mil-réis de gratificação. Tia Mônica, ouvida
a explicação, perdoou a volta do pequeno, uma vez que trazia os cem mil-réis. Disse, é
verdade, algumas palavras duras contra a escrava, por causa do aborto, além da fuga.
Cândido Neves, beijando o filho, entre lágrimas, verdadeiras, abençoava a fuga e não se
lhe dava do aborto.
--Nem todas as crianças vingam, bateu-lhe o coração.




